Lindsay Fraser. “Harry Potter — Harry e eu”, The Scotsman, Novembro de 2002.

LF: O que você lia quando era criança?
JK: Meu livro favorito era “O pequeno cavalo branco” de Elizabeth Goudge. Isso provavelmente estava relacionado ao fato de a heroína ser bastante honesta, mas ele é um livro muito bem construído e inteligente, e quanto mais você lê, mas inteligente ele parece ser. E talvez, mais que qualquer outro livro, ele tem uma influência direta nos livros de Harry Potter. A autors sempre incluía detalhes sobre o que seus personagens estavam comendo, e eu lembro de gostar disso. Você pode ter notado que eu sempre listo os alimentos que são consumidos em Hogwarts.

Minha autora de maior influência, sem dúvida, é Jessica Mitford. Quando minha tia-avó me deu ‘Hons and Rebels’ quando eu tinha 14 anos, ela se tornou instantaneamente minha heroína. Ela foge de casa para lutar na Guerra Civil Espanhola, levando com ela uma câmera a qual ela havia debitado na conta do pai. Quem dera eu tivesse nervos para fazer algo assim. Eu amo o jeito que ela nunca deixa para trás algumas de suas características adolescentes, sendo fiel à sua política — ela era uma socialista autodidata — durante toda a sua vida. Eu acredito que já li tudo que ela escreveu. Eu até dei seu nome a minha filha.

O que você fez quando deixou a escola?
Eu fui para a Universidade Exeter por quatro anos, incluindo um ano ensinando inglês em Paris, o que eu amei. No início, Exeter foi um pequeno choque. Eu estava esperando estar entre várias pessoas como eu — com pensamentos radicais. Mas não foi bem assim. Entretanto, uma vez que eu consegui fazer amizade com algumas pessoas cujos ideais eram similares aos meus, eu comecei a me divertir. Se bem que eu acho que não trabalhei tão duro quanto eu poderia ter trabalhado.

Por que você escolheu estudar línguas quando você amava tanto a Literatura Inglesa?
Isso foi um pequeno erro. Eu certamente não fiz tudo que meus pais me falaram para fazer, mas acho que fui influenciada pelas crenças deles de que as línguas seriam mais úteis na hora de achar um emprego. Eu não me arrependendo inteiramente, mas foi uma decisão estranha para alguém que realmente queria ser apenas uma escritora, não que eu tivesse coragem de contar a alguém, é claro.

Para onde você foi assim que se formou?
Esse foi um erro ainda maior. Eu fui para Londres fazer um curso de secretária bilingüe. Eu era — sou — totalmente inapropriada para o trabalho. Eu como secretária? Eu seria seu pior pesadelo. Mas uma coisa que eu aprendi a fazer foi datilografar. Agora, eu datilografo todos os meus livros, então isso foi bastante útil. Eu sou muito rápida.

Quando a idéia de Harry Potter veio à sua mente pela primeira vez?
Meu namorado estava se mudando para Manchester e queria que eu me mudasse também. Aconteceu durante uma viagem de trem de Manchester para Londres, após uma semana procurando por um apartamento que Harry Potter fez sua aparição. Eu nunca senti uma invasão tão enorme de excitação. Eu soube imediatamente que seria muito divertido escrever sobre isso.

Eu não sabia até então que seria um livro para crianças — eu só sabia que tinha esse garoto. Harry. Durante aquela viagem eu também descobri Rony, Nick quase sem cabeça, Hagrid e Pirraça. Mas com a idéia de minha vida correndo pela minha cabeça, eu não tinha uma caneta que funcionasse. E eu nunca vou a lugar algum sem minha caneta e meu caderno. Então, melhor que tentar escrever, eu tinha que pensar. E eu acredito que foi uma coisa muito boa. Eu estava sitiada por um montão de detalhes e se aquilo não sobrevivesse à viagem, provavelmente não valeria a pena lembrar.

A Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts foi a primeira coisa em que me concentrei. Eu estava pensando num lugar de grande ordem, mas imenso perigo, com crianças que têm habilidades com as quais elas podem impressionar seus professores. Logicamente, teria que ser construído em um lugar isolado e rapidamente eu o construí na Escócia, em minha mente. Eu acho que no meu subconsciente era um tributo ao lugar onde meus pais tinham se casado. Muitas pessoas dizem que sabem no que me baseei para criar Hogwarts — mas todos eles estão errados. Eu nunca vi em lugar algum um castelo que pareça a Hogwarts que eu imaginei.

Então, eu voltei para o apartamento aquela noite e comecei a escrever tudo num caderno minúsculo e barato. Eu escrevi listas de todas as matérias que seriam estudas — eu sabia que deveriam ser sete. Os personagens vieram primeiro, e então, eu tinha que achar nomes para eles. Gilderoy Lockhart é um bom exemplo. Eu sabia que seu nome tinha que ter um toque impressionante. Eu estava olhando no Dicionário de Frases e Fábulas — uma grande fonte para nomes — e encontrei Gilderoy, um belo assaltante escocês. Exatamente o que eu queria. E então, eu encontrei Lockhart num memorial de guerra para a Primeira Guerra Mundial. Os dois juntos diziam tudo que eu queria para o personagem.

Você pode descrever o processo de criação de suas histórias?
Era uma questão de descobrir por que Harry estava onde estava, por que seus pais estavam mortos. Eu estava inventando, mas parecia uma pesquisa. Até o final da viagem de trem eu sabia que seria uma série sete livros. Eu sabia que isso era extremamente arrogante para alguém que nunca havia publicado algo, mas foi como veio para mim. Levaram cinco anos para que eu planejasse a série, desenvolvesse o enredo de cada um dos sete livros. Eu sabia o que e quem estava vindo, e quando; parecia que eu estava encontrando velhos amigos. Professor Lupin, que aparece no terceiro livro, é um dos meus personagens preferidos. Ele é uma pessoa machucada, literal e metaforicamente. Eu acho que é importante para as crianças saberem que os adultos, também, têm seus problemas, e que eles os enfrentam. Ele ser um lobisomem é uma metáfora para as reações, doenças e fraquezas das pessoas. Eu quase sempre tenho histórias completas para meus personagens. Se eu colocasse todos os detalhes, cada livro seria do tamanho da Enciclopédia Britânica, mas eu realmente tenho que ser cuidadosa, porque eu não posso supor que os leitores sabem tanto quanto eu. Sirius Black é um bom exemplo. Eu tenho toda uma infância criada para ele. Os leitores não precisam saber, mas eu sim. Eu preciso saber muito mais que eles, pois eu sou aquela que desenvolve os personagens através das páginas.

Eu inventei o jogo de Quadribol depois de uma grande discussão com meu namorado que morava comigo em Manchester. Eu deixei a casa, fui para um pub — e inventei Quadribol.

Você desistiu de trabalhar para escrever os livros?
Oh não! Eu mudei para Manchester e trabalhei para a Câmara de Comércio de Manchester, por pouco tempo, porque quase imediatamente eu me tornei desnecessária. Então, eu fui trabalhar na Universidade, mas eu estava muito infeliz. Minha mãe faleceu um mês após eu ter mudado para lá. E então, nós fomos assaltados e tudo que minha mãe havia deixado para mim foi roubado. As pessoas estavam sendo incrivelmente gentis e amigáveis, mas eu decidi que queria ir embora.

Eu sabia que tinha amado ensinar inglês como língua estrangeira em Paris, e pensei como seria se eu viajasse para o exterior, ensinasse, pegasse meu manuscrito. Ainda havia uma esperança… Foi assim que eu fui morar em Oporto, Portugal, ensinando estudantes entre 8 e 62 anos. A maioria era adolescentes que se preparava para provas, mas também havia homens de negócios e donas de casa. Os adolescentes de 14 a 17 anos eram facilmente meus favoritos. Eles eram tão cheios de idéias e possibilidades, formando opiniões. Eu me tornei especialista naquele departamento.

Após seis meses, eu encontrei aquele que seria meu marido, um jornalista. Nós casamos e um ano depois veio Jéssica, pouco antes do meu aniversário de 28 anos. Aquele foi, sem dúvida, o melhor momento de minha vida. Até aquele momento, eu havia escrito os três primeiros capítulos de Harry Potter e a Pedra Filosofal, quase exatamente como eles aparecem publicados no livro. O resto do livro estava apenas num rascunho tosco.

Por que você se mudou para Edimburgo?
Estava ficando claro que meu casamento não estava dando certo e eu decidi que seria mais fácil se eu voltasse para a Inglaterra. Meu trabalho não era muito seguro e, é claro, eu parei completamente após os feriados de verão. Eu estava preocupada em arranjar um trabalho naquele período, ainda mais com um bebê. Eu vim para Edimburgo para passar o Natal com minha irmã, eu posso ser feliz aqui. E eu tenho sido feliz.

As únicas pessoas que eu conhecia em Edimburgo eram minha irmã e sua melhor amiga. Eu só tinha visto o marido dela uma vez antes de vir. A maioria de meus amigos estava em Londres, mas eu achei que Edimburgo era o tipo de cidade na qual eu gostaria de criar minha filha. Logo eu fiz alguns bons amigos. Talvez fosse a força de meu sangue escocês me chamando para casa.

Como você continuou a escrever?
Eu decidi voltar a ensinar para ganhar a vida, mas antes eu precisava de qualificação – um certificado de Pós-Graduação em Educação. Levaria um ano, então eu sabia que a menos que eu terminasse o livro agora, eu poderia jamais terminá-lo. Eu fiz um esforço enorme, sobre-humano. Eu colocava Jéssica no carrinho de bebê, a levava para o parque e tentava cansá-la. Quando ela dormia, eu corria para uma cafeteria e escrevia. Nem todas as cafeterias a que eu ia aprovavam que eu me sentasse lá por horas e comprasse apenas uma xícara de café. Mas meu cunhado tinha acabado de abrir uma cafeteria – Nicolson’s – e eu pensei que seria bem-vinda. Eu tomava cuidado em ir apenas quando eles não estavam cheios e o pessoal lá era bem gentil. Eu costumava brincar sobre o que eu faria para eles se meu livro vendesse bem. Eu ainda não tinha certeza se conseguiria publicá-lo. Então, meu primeiro livro foi terminado no Nicolson’s.

O que aconteceu quando Harry Potter e a Pedra Filosofal foi publicado?
Meu editor foi muito encorajador e disse que estava vendendo surpreendentemente bem. Não era nada espetacular – um bom comentário na The Scotsman, seguido por alguns outros – mas a maioria dos comentários eram no boca a boca. Então a minha editora americana, a Scholastic, comprou os direitos para o primeiro livro por mais dinheiro que qualquer pessoa esperava. A explosão de publicidade me aterrorizou. Eu ensinava parte do tempo e escrevia Harry Potter e a Câmara Secreta. Eu me sentia chocada com toda aquela atenção.

O que fez você decidir se tornar uma escritora de tempo integral?
Não foi uma decisão fácil. Eu não sabia se tudo era apenas uma moda passageira. E eu tinha que pensar em minha filha. Mas eu achei que provavelmente poderia nos bancar escrevendo em tempo integral por dois anos, embora eu estivesse arriscando minha carreira de professora, porque eu não ganharia a experiência necessária para voltar para essa carreira. Quando eu ganhei o Prêmio de Livro mais Inteligente, as vendas subiram. Eu ganhei meu primeiro cheque pelos direitos autorais. Eu não esperava conseguir nenhum dinheiro por direitos autorais – não em meu primeiro romance – então, foi um momento de muito orgulho.

Você recebeu muitas cartas de leitores?
Eu lembro da primeira carta de um fã, de Francesca Gray. Começava assim, “Querido senhor”. Eu até a conheci. Havia um fluxo crescente de correspondência, mas quando o livro começou a vender bem na América é que as cartas choveram. Eu percebi que estava me tornando rapidamente minha própria secretária ineficiente. Era um problema bem legal, mas chegara a hora de contratar alguém para fazer as coisas corretamente.

O que aconteceu quando Harry Potter e a Câmara Secreta foi publicado?
Eu fui quase diretamente para o topo da lista de mais vendidos, o que eu achei inacreditável. Você tem que lembrar que aquelas coisas estavam me deixando extremamente surpresa. O fato é que tudo aconteceu muito rápido, mas o que importava era que eu tinha escrito um livro do qual eu me orgulhava.

E Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban?
A idéia de que crianças fariam filas em livrarias para comprar meus livros me animava. Mas havia outro lado mais desconcertante daquele nível de publicidade – ter minha fotografia aparecendo regularmente nos jornais não era algo que eu já tivesse imaginado. Mas todo o tempo, crianças estavam lendo os livros. E nós sabemos agora que adultos também estavam lendo. E eles gostavam. É quando me lembro de ter me sentido sitiada.

Seus livros agora estão traduzidos em pelo menos 50 línguas. O que você acha das diferentes versões?
Eu recebi recentemente cópias do primeiro Harry traduzido em Japonês – é bonito. Mas eu acho que a que mais me impressionou foi a tradução grega.

Ás vezes eu vejo estranhas pequenas aberrações. Na tradução espanhola, o sapo de Neville Longbottom – que ele está sempre perdendo – foi traduzido como tartaruga. O que certamente torna a perda mais difícil. E não é mencionada água para que ela possa viver nela. Eu não quero pensar muito sobre isso. Na versão italiana Professor Dumbledore foi traduzido como “Professor Silêncio”. O tradutor pegou o “dumb” do nome e baseou-se nele para traduzir. De fato “dumbledore” é uma palavra inglesa antiga para abelha grande. Eu escolhi porque minha imagem é de um bruxo afável, sempre se movendo, zumbindo para ele mesmo, e eu adoro o som da palavra também. Para mim “Silêncio” é exatamente o contrário. Mas o livro é muito popular na Itália – então, obviamente não incomoda os italianos.

Você acha que vai acabar todos os sete livros de Harry Potter?
Claro – nem que seja para mim mesma.

O que você fará uma vez que tenha terminado o sétimo livro?
Será a coisa mais incrível, terminar os livros. Será um longo período no qual eu passarei com esses personagens em minha cabeça, e eu sei que ficarei triste quando tiver que deixá-los. Mas eu sei que precisarei deixá-los sozinhos.

Eu estou certa de que sempre escreverei, pelo menos até acabarem as minhas chances. Eu sou muito, muito sortuda.

Por causa do sucesso de Harry. Eu não preciso fazer isso financeiramente, ninguém está me obrigando. Eu preciso fazer isso por mim mesma. Algumas vezes eu acredito que sou temperamentalmente adaptada para ser uma escritora moderadamente sucedida, com o foco das atenções nos livros ao invés de mim. Foi maravilhoso o suficiente ser publicado. A maior recompensa é o entusiasmo dos leitores.

Há momentos – e eu não quero parecer mal-agradecida – quando eu devolveria com muito prazer parte do dinehiro em troca de tempo e paz para escrever. Seria uma grande troca, especialmente durante a produção do quarto livro. Eu fiquei famosa e não me sinto muito confortável com isso. Por causa da fama, algumas coisas realmente difíceis têm acontecido e isso requer um grande esforço para resolvê-las. E eu também tive que lidar com a pressão para promover cada livro, a pressão dos leitores – e a minha – para terminar o próximo. Há algumas semanas negras nas quais eu me pergunto se isso vale a pena, mas eu sigo trabalhando.

Se você procurar por pessoas famosas, sempre encontrará problemas relacionados à fama e eles não são legais. Mas eu ainda acho que sou uma pessoa extremamente sortuda, fazendo aquilo que mais amo no mundo!

Traduzido por: Maria Rosa em 03/05/2006
Revisado por: Patricia Abreu em 04/05/2007 e Antônio Carlos de M. Neto em 21/03/08
Postado por: Fernando Nery Filho em 03/05/2007
Entrevista original no Accio Quote
aqui.