Byatt, A.S. “Harry Potter e o adulto infantil”. New York Times, 11 de julho de 2003.

Qual é o segredo do sucesso explosivo e mundial dos livros de Harry Potter? Por que eles satisfazem as crianças e – uma pergunta muito mais difícil – por que tantos adultos os lêem? Eu acho que parte da resposta para a primeira pergunta é que eles são escritos sob o ponto de vista de uma criança, com um claro instinto por psicologia infantil. Mas então como nós respondemos a segunda? Certamente uma impossibilita a outra.

Primeiro, a questão mais fácil. Freud descreveu o que ele chamou de “romance familiar”, em que uma criança jovem, insatisfeita com sua casa e pais comuns, inventa um conto de fadas em que secretamente ela tem origem nobre, e pode até estar destinado a ser um herói que salvará o mundo. Nos livros de J. K. Rowling, Harry é a criança órfã de bruxos que foram assassinados tentando salvar a vida dele. Ele vive, por razões não convincentes, com seus tios, os verdadeiramente terríveis Dursleys, que representam, creio, sua “verdadeira” família, e são descritos com um veneno impiedoso, exagerado e que mostra ter sido feito com satisfação. Os Dursleys são seus verdadeiros inimigos. Quando ele chega à escola de bruxaria, ele entra em um mundo onde todos, bons ou maus, reconhecem sua importância, e tentam protegê-lo ou destruí-lo.

O “romance familiar” é uma fantasia em período latente, pertencente aos anos “sonolentos” entre 7 anos e a adolescência. Em A Ordem da Fênix, Harry, agora com 15 anos, é um suposto adolescente. Ele gasta grande parte do livro sendo excessivamente bravo com os que o protegem e com os que o provocam. Ele descobre que seu pai não era um modelo de bruxo perfeito, mas alguém que gostava de provocar os colegas. Ele também descobre que sua mente está interligada a do malvado Lord Voldemort, assim ele seria o culpado, de certa forma, pelos atos de violência cometidos pelo seu inimigo.

Em termos psicanalíticos, tendo projetado sua raiva de infância sobre a caricatura dos Dursleys, e mantido sua bondade inocente, Harry agora sente aquela raiva capaz extravasar, colocando seus amigos em perigo. Mas isto significa que Harry está crescendo? Não,realmente. A perspectiva ainda é sob o ponto de vista de uma criança. Não há discernimentos que reflitam alguém à beira da fase adulta. O primeiro encontro de Harry com uma bruxa é inacreditavelmente sem energia, cheio de manobras triviais dignas de uma criança de 8 anos de idade.

Auden e Tolkien escreveram sobre a habilidade de inventar um “segundo mundo”. O da senhora Rowling é um “segundo mundo inferior”, feito de uma inteligente compilação de idéias derivada de todos os tipos de literatura infantil – desde as alegres histórinhas escolares até Roald Dahl, desde Guerra nas Estrelas até Diana Wynne Jones e Susan Cooper. Toni Morrison destacou aquela resistência dos clichês porque eles representam verdades. Clichês narrativos funcionam com as crianças pois elas são confortavelmente reconhecíveis e imediatamente disponíveis para o poder de fantasiar das crianças.

O importante sobre este mundo secundário em particular é que ele é uma simbiose com o mundo real moderno. Magia, nos mitos e contos de fadas, é sobre contatos com o desumano – árvores e criaturas, forças ocultas. A maioria dos escritores de contos de fadas odeia e tem medo de máquinas. Os bruxos da senhora Rowling ignoram as máquinas e usam magia ao invés, mas o mundo deles é uma caricatura do mundo real e tem trens, hospitais, jornais e competição esportiva. Muito da maldade presente nos últimos livros é causada pelos colunistas de jornais da seção de fofocas que transformam Harry em uma celebridade duvidosa, que é a palavra moderna para o herói escolhido. A maioria do resto da maldade (fora Voldemort) é causada pela interferência burocrática nos assuntos educacionais.

O mundo mágico de Rowling não tem espaço para as pessoas de fé. Ele é escrito para pessoas cujas vidas de imaginação estão confiadas em desenhos animados da TV, e os exagerados (mais excitantes, não ameaçadores) mundos paralelos das novelas, reality show e fofocas sobre celebridades. Seu valor, e todo nele, são, como Gatsby disse de seu próprio mundo quando a sua inspiração acabou, “apenas pessoal”. Ninguém está tentando salvar ou destruir nada além de Harry Potter e seus amigos e família.

Então, sim, a atração que os livros causam nas crianças pode ser explicada pelo poder de trabalho na fantasia de escapismo e fortalecimento, combinado ao fato de que as histórias são confortáveis, divertidas e apenas suficientemente amedrontadoras.

Elas confortam contra os medos infantis são como Georgette Heyer uma vez nos confortou contra as verdades das relações entre homens e mulheres, suas histórias policiais domesticando e mascarando a morte. São bons livros deste estilo. Mas porque homens e mulheres adultos se tornariam obcecados por fantasias latentes?

Conforto, eu acho, é parte da razão. A leitura infantil permanece forte para a maioria de nós. Em uma recente pesquisa da BBC sobre as 100 “melhores leituras”, mais de um quarto eram livros infantis. Nós gostamos de regredir. Eu sei que parte da razão pela qual leio Tolkien quando estou doente é que há uma quase total ausência de sexualidade em seu mundo, o que é tranquilizador.

Mas no caso dos melhores escritores infantis do passado recente, havia uma seriedade compensadora. Havia — e há — um verdadeiro senso de mistério, forças grandiosas, criaturas perigosas em florestas escuras. O bruxo adolescente de Susan Cooper descobre seus poderes mágicos e descobre simultaneamente que ele está em uma batalha cósmica entre forças do bem e do mau. Todo arbusto e nuvem brilham com um significado secreto. Alan Garner povoa verdadeiras paisagens com seres malignos e desumanos que perseguem os humanos.

Ao ler autores como esses, temos a sensação de que estamos voltando a ter contato com partes antigas de nossa cultura, quando criaturas sobrenaturais e desumanas – com as quais pensamos ter aprendido nosso senso de bem e mal – habitavam um mundo que não pensávamos que podíamos controlar. Se retrocedermos, retrocederemos para um senso de significação perdida pelo qual lamentamos. Os bruxos de Ursula K. Le Guin habitam um mundo antropologicamente coerente onde a magia realmente atua como uma força. A floresta mágica da Sra. Rowling nada tem a ver em comum com estes mundos perdidos. É pequeno, e no território escolar, e perigoso apenas porque ela diz que é.

Sobre esta questão, é mágica para nosso tempo. Rowling, eu imagino, fala para uma geração adulta que não conhece, ou não se importa com o mistério. Eles são habitantes de selvas urbanas, e não da selva real. Eles não têm as habilidades para diferenciar magia barata da coisa real, pois quando crianças eles investiram diariamente na imitação barata com qualquer imaginação que tivessem.

Similarmente, alguns dos leitores adultos da Sra. Rowling estão simplesmente se revertendo às crianças que um dia foram, quando leram os livros de Billy Bunter, ou investiram nas crianças de papelão de Enid Blython com seus próprios desejos e esperanças infantis. Um número surpreendente de pessoas – incluindo muitos estudantes de literatura – lhe dirão que não desfrutaram realmente de um livro desde sua infância. Infelizmente, estudar literatura comumente destrói a vida dos livros. Mas nos dias anteriores ao emburrecimento e aos estudos culturais, ninguém fez críticas para Enid Blyton ou Georgette Heyer – como eles agora não criticam o grande Terry Prachett, cuja esperteza é metafísica, que cria um mundo secundário energético e vivo, que tem genialidades de vários tipos para fortes paródias opondo-se à manipulação derivada de motivos passados, que lida com a morte com impressionante originalidade. Que escreve frases incríveis.

A substituição da celebridade pelo heroísmo foi o que alimentou este fenômeno. E é seu efeito nivelador de estudos culturais, os quais estão tão interessados na propaganda e na popularidade como nos méritos literários, que eles não acreditam realmente existir. Está tudo bem em comparar os Brontës com bodice-rippers*. Tornou-se respeitável ler e discutir o que Roland Barthes chamou de livros “de consumo”. Não há nada de errado nisso, mas tem um pouco a ver com o calafrio de medo que sentimos ao olhar através das palavras de Keats: “nos mágicos beirais, nas espumas das vagas/De perigosos mares, ou na terra encantada do desespero”.

N.R:
*Filme ou livro sobre relações amorosas nos séculos 18 ou 19.

Traduzida por: Luiz E. C. F. e Lilian Ogussuko em 15/02/2009 e 17/03/2009.
Revisado por: Fabianne de Freitas em 04/05/2009.
Postado por: Ohanna S. Bolfe em 18/05/2009.
Entrevista original no Accio Quote aqui.