Thompson, Bob. “O editor mágico que pegou o pomo de ouro”. Washington Post, 11 de julho de 2007.
Há muitas vantagens em ser o Homem Que Trouxe Harry Potter à América: Você não tem que se importar sobre o último filme de Harry (que começou a ser exibido ontem à meia-noite), por exemplo, ou as milhões de cópias feitas para Harry Potter e as Relíquias da Morte (vendidas à partir do dia 21 de julho) ou o Parque Temático de Harry Potter marcado para começar a competir com Disney World em 2009, o mais rápido possível.
“O fato de que há um parque temático não causa efeito algum na minha vida,” diz Arthur Levine.
Não o entenda de maneira errada: O experiente editor de livros infantis – que tem seu próprio carimbo na Scholastic e que em 1997, excelentemente aceitou o risco do primeiro livro da desconhecida inglesa Joanne Rowling — está longe de ser ingrato pelo fenômeno cultural absurdamente difundido que Harry Potter se tornou. “É isso o que você quer para todos os ótimos livros,” ele diz. “Ter audiência e ter pessoas falando sobre ele”.
Ainda assim, quando a Pottermania ameaçou de não dar certo no lançamento, Levine fez o que tinha de fazer.
Como editor, ele define seu emprego como o de achar escritores dos quais ele goste do trabalho, ajudando-os escrever os melhores livros que consigam e publicando-os bem.
“Em algum ponto, eu tenho de deixar de prestar tanta atenção ao fenômeno”, ele diz. “Eu não sou responsável pelo fenômeno”.
“Eu sou responsável pelos livros”.
* * *
Ande pelos escritórios de Soho na Scholastic e você terá uma grade dose do fenômeno de Harry Potter bem ali.
Acima da mesa da segurança no primeiro andar, um vídeo anuncia o sétimo e último livro de Harry com uma série de perguntas de tirar o fôlego:
“HOGWARTS REABRIRÁ?”
“SNAPE É BOM OU MAU?”
“QUEM MORRERÁ, QUEM SOBREVIVERÁ?”
No andar de cima, na espaçosa sala onde ocorre a entrevista, a atmosfera é mais calma. Ilustrações de livros clássicos de crianças cobrem as paredes: Where the Wild Things Are, Make Way for Ducklings, Goodnight Moon. (N/T: Nenhum dos livros tem tradução em português.)
Levine com 45 anos, tem cabelos curtos que começam a ficar grisalhos e um sorriso pronto que contém uma pequenina alusão ao gato que pegou o creme.
Ele não pode dizer o que acontece em Harry Potter e as Relíquias da Morte, é claro, mas ele esta quase se matando para dizer. Diga-lhe que algum fã de Potter o incitou a falar sobre as nuances antes de mergulhar nas Horcruxes e ele ri contagiosamente.
“Pode apostar”! ele diz.
A vida de Levine deveria ser uma inspiração para todos os ingleses formados.
Ele cresceu em Elmont, Long Island, bem no limite de Queens, com o pai médico e a mãe que era professora e artista. “Eu sempre fui do tipo garoto inglês”, ele comenta, e ele lê “amplamente” desde pequeno. Entre muitos livros que gosta, ele menciona as histórias de Russell Hoban’s Frances, as séries de Michael Bond’s Paddington e as fantasias de Edgar Rice Burroughs, J.R.R. Tolkien e Ursula K. Le Guin.
Em Brown se formou em inglês e escrita criativa, com ênfase em poesia. Depois de graduado, se inscreveu no curso Radcliffe Publishing Procedures (Procedimento de Publicações), um famoso começo em direção a um primeiro nível na carreira de publicação. Quando completou o curso, o diretor o perguntou em qual parte de publicações ele gostaria de ser envolvido.
“Eu disse que eu gostaria de ser um editor de livros de criança,” Levine relembra. “E ele me disse pra não fazer isso, que eu nunca conseguiria um trabalho”. “Não havia trabalhos suficientes, me pareceu, e os ocupantes pareciam nunca partir”.
Nota-se aquele sorriso de novo: “Estou satisfeito por não ter ouvido aquele conselho em particular”. G.P. Putnam’s Sons o contratou como editor assistente alguns meses depois.
Mais ou menos nos primeiros dez anos da carreira de Levine – durante os quais ele trabalhou também na Knopf and Dial – ele prestou mais atenção à comum sabedoria. O que se dizia era que ficção para crianças, especialmente de capa-dura, não era vendida.
Em um nível, isso estava bem para Levine. Ele tinha pela arte o amor de sua mãe e tinha escolhido livros de criança principalmente porque “para mim, isso era poesia e arte juntas”. Então ele criou sua reputação a partir de livros de imagens.
“Eu era conhecido por ‘Mirette on the High Wire’ e ‘Officer Buckle and Gloria’ “, diz ele.
Desenvolveu também, desde o começo, um instinto para ficção que iria vender.
Naquele trabalho inicial na Putnam, acabou sendo o primeiro a ler Redwall, de Brian Jacques. “Eu estava na lua”, diz ele sobre o primeiro volume do que seria uma série imensamente popular. Quando o chefe dele não acreditou muito, ele perguntou se podia levar no andar de baixo até Philomel, um marca da Putnam. Tempos depois, quando ele estava chefiando a divisão para as crianças na Knopf, ele acentuou sua reputação quando adquiriu a celebrada trilogia de Philip Pullman, “Os materiais escuros“.
Esse registro da trilha deu a ele alguma credibilidade quando – na primavera de 1997 – ele foi para a Feira de Livros Infantis de Bologna e se apaixonou por um bruxo pré-adolescente.
* * *
Barry Cunningham é uma das únicas pessoas no mundo que sabe o que Levine estava sentindo quando leu J.K. Rowling pela primeira vez. Cunningham é o Homem Que Comprou Harry Potter Pela Primeira Vez – para Bloomsbury Livros Infantis, naquela época, uma pequena empresa inglesa. Ele realmente gostou do manuscrito de Rowling, em especial o relacionamento entre as personagens e o jeito que eles mostravam o “poder da amizade” – o que não significa que ele pensou que seria tão vendido.
Depois de pechinchar com a agente de Rowling pelo que, diz ele “uns cinco minutos inteiros”, ele comprou o manuscrito por uma soma pequena de quatro algarismos. Então, preocupado sobre a falta de dinheiro da sua nova autora, ele advertiu-a a arrumar um trabalho apropriado durante o dia.
Não era responsabilidade da Bloomsbury de vender os direitos americanos de Harry. A companhia nem os possuía. Mas quando Levine chegou a Bologna procurando por futuros clássicos para sua nova marca na Scholastic, o diretor de direitos da Bloomsbury deu a ele um conjunto de livros de Potter. Ele os leu voltando para casa no avião. Quando o livro foi a leilão, Levine permaneceu dando lances, até $105.000 quando seu último adversário desistiu.
“Eu teria gritado e ido mais longe se eu tivesse que fazê-lo”, diz.
Levine deve ter contado essa história umas mil vezes já. Mas ainda há entusiasmo em sua voz quando ele descreve como ele se tornou insistentemente obcecado – “primeiro capítulo, primeiras páginas” – por Harry.
“Eu me lembro que amei essa história de um garoto que é tratado muito mal e realmente é levado a se sentir insignificante e fraco”, diz ele. “E então, do nada, vêm esse convite”. Não só o convite prometeu um escape de uma vida de constante abuso da “família” que deseja que você seja invisível, mas no novo mundo mágico você já é uma lenda e destinado a ser “uma pessoa de grande estatura”.
E há também esse esporte fantástico chamado quadribol, que acontece de você ser melhor do que qualquer outro na sua escola inteira. Quem não se relaciona a isto?
“Eu não era negligenciado. Não dormia em um armário sob as escadas. Minha família me ama”, comenta Levine com uma risada. “Isso não significa que eu não me sentia invisível e fraco e que eu não tinha a fantasia de ser reconhecido algum dia. Esse desejo é algo que todos compartilhamos”.
Esse era só o começo do encanto de Rowling.
“Eu me lembro de adorar o humor, achando-a muito engraçada”, Levine continua, “e acho que aqui está uma rara variedade de talentos em uma escritora: alguém que consegue cativar-me emocionalmente e ainda me faz rir. E cujo enredo me faz querer continuar lendo”.
Levine ressalta que é uma tremenda vantagem para Rowling ter vivido com seus personagens por tanto tempo entre o tempo que ela criou Harry (1990) e o tempo em que o primeiro livro foi publicado na Inglaterra (junho 1997).
“Ela estava criando o restante da história, imaginando toda a jornada da experiência de Harry”, ele diz. Foi só depois que Levine terminou o último livro que ele entendeu completamente “o quão cuidadoso, calculado e sutil todas as conclusões e partes de informação tinham sido construídas e colocadas de um livro para o outro”.
As personagens também foram beneficiadas pelo longo tempo de desenvolvimento.
“Ela não encontrou essas personagens simplesmente”, Levine conta. E todas elas – pequenas personagens também – ficaram constantemente mais complexas enquanto cresciam.
Harry, Rony e Hermione, por exemplo, atingiram o desorientador pico da adolescência em livros diferentes e experimentaram isso de maneiras distintas. Harry atingiu isso no quinto livro, transformando-se em um irritado, egocêntrico adolescente propenso a lutar contra o injusto jeito que a vida o tratou.
“Eu adoro isso!” Levine exclama, colocando as mãos sobre seu próprio coração, quando se toca no assunto.
Ele estava tão surpreso quanto qualquer outro fã, diz ele, pelos desenvolvimentos da personagem e do enredo enquanto eles se revelaram. O que foi exatamente o que ele e Rowling queriam.
“Eu não sou um colaborador dela. Eu sou só o substituto do leitor”, ele explica. Ela não precisa dele para ajustar sua história. O trabalho de Levine – juntamente com a editora inglesa de Rowling, Emma Matthewson – é dizer, “Assim foi o jeito que eu reagi”.
Algumas vezes ele diria, “Eu sei o que está acontecendo aqui”, e Rowling diria, “Eu não quero que você tenha essa reação nesse ponto, então acho que vou mudar algumas informações”.
Outras vezes, quando ele a questionou sobre algo nos primeiros volumes, ele disse, “Essa é uma boa pergunta. Está legal para mim você perguntar isso ai. Vou te responder no Livro 5”.
* * *
Muito antes de o quinto livro ser publicado, obviamente, Harry o Fenômeno se tornou em um passe de mágica equivalente a Godzilla. Ninguém – talvez apenas a criadora de Potter – tinha imaginado que ele se tornaria tão grande.
O diretor de publicidade da Scholastic, Kris Moran, se lembra de quando acompanhou Rowling até Worcester Mass., na a primeira vez que ela autografou livros em uma livraria, no seu tour pelos Estados Unidos em 1999, logo depois do terceiro livro ser lançado no país. “O que está acontecendo?” Rowling perguntou quando eles se aproximaram da loja onde podiam ver uma multidão formada. “Está havendo algum tipo de promoção?”
Então veio o grito e a cantoria pelo nome dela.
Um ano depois, Harry Potter e o Cálice de Fogo se tornou o primeiro livro da série que foi lançado mundialmente, ocorrendo festas à meia-noite em vários lugares. Rowling deixou de viajar. Entretanto, o primeiro filme de Harry, programado para ser lançado no próximo ano ameaçava afundar o jovem bruxo num marketing enganoso.
Foi por volta dessa época que Levine decidiu que era melhor não deixar o Fenômeno Potter subir à sua cabeça.
Por um tempo, ele sentiu como se estivesse vivendo sua própria versão de Harry Potter: um editor bonzinho que se tornou um perito em publicação. “Eu ainda me lembro de pensar: ‘Uau – mais pessoas descobriram Harry Potter’ “. Mas eventualmente decidiu “ficar feliz quando algo de bom acontecesse” e trazer meu foco de volta para onde precisava estar”.
Nos livros.
O que ele conserva é ter conduzido o fenômeno em primeiro lugar.
Pergunte a Levine o que fez Harry Potter um sucesso e ele lhe dirá da atrativa história de Rowling (Mãe Solteira Distrubuidora de Fantasias de Canetas, Vida de Modificações), o que a ajudou a ter uma exposição na mídia que a maioria de autores de livros infantis apenas sonham. Ele também mencionará que Harry apareceu no momento em que as crianças estavam começando a comunicar seus entusiasmos, não apenas no parquinho, mas também em sites como o Amazon.com.
Ainda, essas são as razões para as pessoas escolherem os livros, comenta. O que conta é quando eles lêem.
Então, como é ser Arthur Levine nesse momento de clímax em que o último livro da série está para ser publicado e o trabalho dele está finalmente acabado?
“Eu me sinto muito, muito orgulhoso de J.K. Rowling e o que ela fez”, Levine diz. “Eu sinto orgulho de ser associado com um grupo tão forte de livros que trouxe divertimento para tantas pessoas”.
Ele espera e deseja ser editor de Rowling de novo.
E ainda: Os dias dele sem Harry, o fazem sorrir também.
Levive e sua esposa têm um filho de três anos e meio e “há 4,000 livros de imagens” para mostrar a ele.
Eles acabaram de começar Mike Mulligan and His Steam Shovel.
O editor tem outros autores dos quais está muito interessado. Um deles é um novelista gráfico australiano, Shaun Tan, cuja narrativa sem palavras sobre imigração, The Arrival, Levine chama de “um livro inacreditável”.
O outro escritor, o irlandês Roddy Doyle, aparece na lista de outono de Levine com a obra “Wilderness”.
“Roddy Doyle! Bom, deixe-me dizer a você sobre Roddy Doyle. Eu não consigo acreditar, eu sou tão sortudo por ser editor dele”, Levine comenta, soando como quem teria uma vida totalmente encantada mesmo se Harry Potter nunca fizesse parte disso.
“Acabei de me beliscar, isso é muito legal”.
Traduzida por: Ana Carolina Arantes Feitosa em 16/09/2008.
Revisado por: Marcela Cristina de Magalhães em 19/09/2008.
Postado por: Vítor Werle em 08/10/2008.
Matéria original aqui.