Sweeney Todd – Crítica por Cinema em Cena – 07/02/2008

SWEENEY TODD
Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet

Cinema em Cena ~ Pablo Villaça
07 de fevereiro de 08

Tim Burton é um cineasta espetacular quando se trata de criar universos fantasiosos repletos de um humor negro cortante que, além de divertir, é fundamental no desenvolvimento dos personagens – e não é à toa que seus melhores trabalhos são aqueles que dependem principalmente destas características, como As Grandes Aventuras de Pee-Wee, Os Fantasmas se Divertem, Edward Mãos-de-Tesoura, Ed Wood, Peixe Grande e A Noiva-Cadáver. Por outro lado, a incapacidade de Burton de criar narrativas que envolvam o espectador emocionalmente é notória: se apreciamos os mundos e personagens criados pelo diretor, esta afeição se estabelece principalmente de maneira racional, intelectual – e são raríssimos, os momentos em que Burton consegue realmente capturar o coração de seu público. E Sweeney Todd resume perfeitamente estas qualidades e defeitos do realizador.

Baseado no musical da Broadway concebido por Stephen Sondheim e Hugh Wheeler a partir de uma adaptação feita por Christopher Bond, Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet reconta a trajetória sombria de um personagem que já protagonizou uma parcela razoável de produções ao longo dos últimos 80 anos: vivendo na Londres do final do século 19, Todd é um barbeiro que trabalha acima da loja de tortas da Sra. Lovett. Por motivos que variam de um filme a outro (ganância, trauma de infância, desejo de vingança), ele degola parte de sua clientela, atirando suas vítimas num alçapão que leva ao subsolo da loja da viúva Lovett – que, então, usa a carne fresca como ingrediente de suas tortas, que se tornam sucesso na cidade. Nesta versão escrita por John Logan, porém, a ira de Sweeney Todd (Depp) não se aplaca facilmente, já que ele tem duas vítimas específicas em mente: o juiz Turpin (Rickman) e seu auxiliar Bamford (Spall), que, 15 anos antes, o enviaram para uma prisão na Austrália sob falsas acusações a fim de que o primeiro pudesse se aproximar de sua esposa.

Como em vários de seus trabalhos, Burton já inicia o longa com uma viagem atípica pelo universo de Todd durante os créditos iniciais – e, sem perder tempo, logo introduz um flashback que estabelece as motivações do protagonista de maneira esquemática, mas nem por isso menos eficaz, já que combina com o tom de fábula também tão comum na filmografia do cineasta. Aliás, considerando-se a abordagem feita por Sondheim na concepção musical da narrativa, Burton revela-se uma escolha ideal para comandar esta adaptação, já que sua sensibilidade particular para o macabro se reflete na interpretação gótica que a Londres vitoriana ganha no longa (obra do veterano diretor de arte Dante Ferretti). Da mesma maneira, a fotografia monocromática, que oscila entre o sépia e o quase preto-e-branco, funciona como lembrança da existência triste e amargurada de seu protagonista – e é apenas lógico que a única cor intensa vista na tela (com exceção dos flashbacks em tons quentes) seja o vermelho do sangue de suas vítimas.

Em contrapartida, Burton falha naquilo que é um especialista: nas investidas em humor negro. Se normalmente a dura sentença que o juiz Turpin impõe em certo instante a um atípico réu provocaria risos ao ser apresentada pelo cineasta, aqui ela soa apenas como algo trágico, lamentável – e o mesmo pode ser dito sobre a seqüência que ilustra uma fantasia da Sra. Lovett (Carter) envolvendo um Sweeney Todd que se recusa a entrar no clima idílico para o qual é transportado. Além disso, Burton, que já não é um cineasta dos mais sutis, carrega no simbolismo de planos como aquele em que a jovem Johanna (Wisener, inexpressiva) observa um pássaro engaiolado ou um outro no qual Todd vê o próprio reflexo deformado por um espelho trincado. Para piorar, todo o impacto criado pela queda dos corpos através do alçapão é gradualmente diluído na insistência com que a cena é repetida ao longo da projeção.

Enquanto isso, as canções criadas por Sondheim evitam se aproximar de melodias graciosas e investem corretamente numa estrutura operesca que privilegia as letras em detrimento da música – e, embora não contenha uma única composição que possa ser assobiada pelo espectador na saída do cinema, a obra de Sondheim revela-se mais do que apropriada ao tom e ao propósito da narrativa. Tim Burton, por sua vez, também se recusa a criar coreografias que chamem a atenção para si mesmas, descartando a teatralidade de filmes como Chicago em prol de uma abordagem diegética: os personagens cantam não para o espectador, mas sim uns para os outros. É uma pena, portanto, que a história torne-se tão aborrecida sempre que se concentra no romance entre o jovem Anthony – cujo sobrenome, Hope (“Esperança”), é irritantemente óbvio – e a bela Johanna, transmitindo a impressão de que a subtrama foi encaixada apenas para tentar equilibrar a desesperança dos demais personagens.

Compensando seu claro despreparo como cantor através da interpretação intensamente amargurada das músicas, Johnny Depp cria, aqui, um indivíduo sem qualquer esperança de redenção: pálido e com os olhos mergulhados numa sombra profunda, Sweeney Todd é apenas a casca do homem que foi no passado – e sua obsessão por vingança torna-o distante de tudo que o cerca. Lançando um olhar de ódio e desprezo sobre tudo e todos, ele é quase tão vilanesco quanto o próprio juiz Turpin, só não superando-o por ser, no fim das contas, uma criação deste. Já Helena Bonham Carter, embora um pouco melhor como cantora, também encontra sua força na composição da sra. Lovett, que, de mulher aparentemente amoral, gradualmente revela uma doçura e uma ingenuidade que a tornam mais humana e, portanto, digna de pena. E se Alan Rickman vive Turpin com o talento de sempre, revelando os fetiches do personagem através de pequenos detalhes, Timothy Spall abandona qualquer sutileza ao transformar Bamford num sujeito sempre cínico e antipático (o que, no contexto do filme, não incomoda tanto quanto deveria). Finalmente, Sacha Baron Cohen comprova mais uma vez sua versatilidade ao abandonar qualquer vestígio de Borat, Ali G ou Bruno, surgindo, em vez disso, como o divertido e inescrupuloso Adolfo Pirelli em uma pequena – mas marcante – participação.

Ainda assim, por maiores que sejam suas virtudes estéticas e narrativas, Sweeney Todd repete o fracasso de tantos outros trabalhos de Burton em seu aspecto emocional – e a eventual “tristeza” que desperta no espectador é fruto de uma apreciação intelectual da tragédia, não algo visceral, que nos leve às lágrimas ou ao lamento profundo. Neste sentido, a versão protagonizada por Ray Winstone para a TV britânica em 2006 se sai bem melhor, embora empalideça diante da obra de Burton em outros quesitos. Esperemos que um dia o cineasta finalmente consiga encontrar o equilíbrio entre a plástica e a emoção.



 
 
 
 
 
 
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