Fry, Stephen. “Vivendo com Harry Potter”. BBC Radio4, 10 de dezembro de 2005.

Stephen Fry: Foi no natal cinco anos atrás que eu tive a estranha experiência de me ouvir no rádio o dia inteiro no Boxing Day enquanto a Radio4 transmitia a gravação de Harry Potter e a Pedra Filosofal.

Foi um privilégio ser a voz para o trabalho de J.K. Rowling para os 6 livros, 2764 páginas, e 100 horas e 55 minutos de gravações.

As personagens são amigos familiares “e inimigos também” para mim, mas, como milhões de outros, eu espero ansiosamente por cada novo capí­tulo.

Eu conheci Jo há quase sete anos quando ela veio ao estúdio onde eu gravava o primeiro livro. Ela continua famosamente reticente, e como milhões de fãs de Potter, eu sou fascinado para saber como é viver com Harry, de onde vem a inspiração para os livros, o que ela pensa sobre as críticas, e o que ela fará quando terminar o capítulo final.

Então, quando Jo concordou em gravar essa conversa comigo, eu me agarrei à oportunidade.

Stephen Fry: Jo, eu suponho que uma boa pergunta para começar seria simplesmente: qual o personagem com que você mais se identifica quando está escrevendo ou quando acaba de escrever?

J.K. Rowling: Provavelmente Harry, realmente, porque eu tenho que pensar em mim dentro da cabeça dele mais do que a de qualquer outro, porque tudo é visto a partir do seu ponto de vista. Mas há um pouco de mim na maioria das personagens, eu acho. Se diz isso sobre escritores, hm, eu acho que é impossível não colocar um pouco de si mesmo dentro de alguma personagem, porque você tem que imaginar sua motivação.

Stephen Fry: Então ocorreu a você quando planejava os livros, torcendo para que o primeiro fosse publicado, que tantas pessoas que nunca estiveram em um internato podessem se relacionar com esse mundo tão particular dos internatos ingleses que Hogwarts representa?

J.K. Rowling: Bem, a verdade é, eu nunca estive dentro de um deles também, é claro. Eu tive uma educação compreensiva. Mas isso foi essencial para que as crianças pudessem se aproximar de algum lugar durante a noite. Não poderia ser uma escola diurna, porque a aventura acabaria a cada dia se eles fossem para casa e falassem com seus pais, e depois haveria os intervalos da escola toda semana para passear durante a noite, então tinha que ser um internato. Que também era lógico, porque onde bruxos educariam suas crianças? Este é um lugar onde haveria muitos barulhos, cheiros, luzes, você gostaria de mantê-los em algum lugar distante para que os trouxas não aparecessem o tempo inteiro.
Mas eu pensei que as pessoas fossem reconhecer a idéia de várias crianças trancadas juntas, talvez, mais do que eles reconheceriam o ambiente de um internato. Eu não estou certa se estou familiarizada a isso, mas eu acho que estou familiarizada com o que as crianças são quando estão juntas.

Stephen Fry: A questão é, você criou um mundo, isso é como a definição de ficção bem sucedida, é ter um mundo que de alguma forma seja circunscrito por suas próprias regras, sua própria ética, seu próprio sabor cultural, e seus cheiros e sentidos, e você fez isso, e é por isso que é tão comum ouvir crianças e adultos sonhando que estão em Hogwarts, sonhando que estão lado a lado com Harry, Rony e Hermione e todos os outros. E naturalmente, o que vem como resultado disso, também, é que você pega avisos em vozes estranhas de pessoas que eu sempre imaginei com cabelos cor de aço com uma agulha de tricô atravessada em um coque atrás, argumentando que de alguma forma isso é perigoso.

J.K. Rowling: Sim.

Stephen Fry: …para pessoas, e, deixando de lado a questão de se a magia é ou não perigosa para as pessoas, que eu imagino que nós podemos ignorar porque é… ela parece chegar às selvagens margens da irracionalidade.

J.K. Rowling: É tudo uma parte disso. Moças jovens, duzentos anos atrás, não podiam ler romances porque eles as inflamariam, as excitariam e fariam com que elas torcessem por coisas que não eram reais. E eu me lembro de ser desaconselhada a ler, quando eu era bem jovem, sobre Virginia Woolf, diziam que ela não devia escrever porque iria exacerbar sua condição mental.
Nós precisamos de um lugar para escaparmos, seja como escritor ou como leitor, e obviamente, o mundo que eu criei é um exemplo particularmente brilhante de mundo para onde é muito prazeroso escapar. A bonita imagem em C.S. Lewis onde existem lagos “o mundo entre os mundos” e você pode pular em lagos diferentes para acessar mundos diferentes. E isso, para mim, foi sempre uma metáfora para uma biblioteca. Eu sei que Lewis não estava realmente pensando nisso quando ele escreveu, claro…

Stephen Fry: Sim, ele estava escrevendo metáforas cristãs.

J.K. Rowling: Não, era uma metáfora mais cristã para ele, sim. É claro, mas para mim, isso era pular para dentro de mundos diferentes, entrar em mundos diferentes, um lugar bonito, e isso, para mim, é o que a literatura deveria ser. Então se você ama Hogwarts ou se a detesta, eu não acho que você pode criticá-la por ser um mundo onde as pessoas se divertem.

Stephen Fry: Não. Precisamente. Eu quero dizer, essa é, essa é a razão disso, ela exercita uma parte afiada de nossas imaginações.

J.K. Rowling: Eu li uma entrevista sua onde eu fiquei muito honrada em ver que você traçou um paralelo entre este mundo e o mundo de Sherlock Holmes, e eu achei que foi uma comparação honrosa que também ressoou em mim, porque quando eu leio as histórias de Holmes, isto é, claro, um mundo que nunca existiu realmente. E ainda assim, você pode sinceramente acreditar que existiu, e mais importante, você quer que ele tenha existido, não é?

Stephen Fry: Exatamente isso.

J.K. Rowling: E é por isso que ele é uma leitura tão fabulosamente divertida.

Stephen Fry: Sim. E porque Sherlock Holmes, até hoje, ainda recebe cartas na Baker Street 221b.

J.K. Rowling: Exatamente isso.

Stephen Fry: E é claro, é uma peculiaridade que vocÊ seja acusada de criar tanto um mundo no qual crianças podem se comprazer em uma fantasia escapista e de criar um mundo que é assustador, porque é tão cheio de malícia e perigo, e isso poderia chateá-los. Agora, não podem ser ambos verdade.
Mas eu acho que um dos avanços na literatura infantil que você fez com essa série memorável, é que você não se arragarrou na dificildade, no medo, na traição, na injustiça e em todas essas coisas que se exercitam nas mentes infantis.

J.K. Rowling: Eu sinto verdadeiramente que existe um movimento para limpar a literatura porque estamos tentando proteger as crianças não de, necessariamente, os fatos ruins da vida, mas de suas próprias imaginações.
Eu me lembro de estar nos Estados Unidos alguns anos atrás e o dia das bruxas estava chegando, e três programas de televisão seguidos falavam sobre como explicar para as crianças que aquilo não era real. Agora existe uma razão pela qual criamos essas histórias, e nós sempre criamos essas histórias, e essa razão pela qual temos esses festivais pagãos, e a razão pela qual até a igreja permite um pouco de medo… Nós precisamos sentir medo, e nós precisamos enfrentar isso em um ambiente controlado. Essa é uma parte importante do crescimento, eu acho. E a criança que foi protegida dos dementadores na ficção, eu argumentaria, é muito mais propensa a fracassar para eles depois na vida real.
E também, o que estamos dizendo para crianças que têm pensamentos assustadores e perturbadores? Estamos dizendo que é errado, que não é natural, e não é algo intrínseco da condição humana. Que eles são de alguma forma estranhos ou doentes.

Stephen Fry: Exatamente.

J.K. Rowling: Essa é uma coisa muito perigosa para se dizer a uma criança.

Stephen Fry: E a culpa é o maior gatilho para a agressão que o homem tem. E se as pessoas crescerem pensando que elas são peculiares por terem pensamentos sombrios ou por saberem sobre o lado estranho do mundo e de suas vidas, isso fará delas seres humanos terrí­veis, não é?

J.K. Rowling: [silêncio] Eu concordo totalmente.

Stephen Fry: Um dos trabalhos de escrever, no geral, é mostrar que você não está sozinho.

J.K. Rowling: Sim, sim, é mesmo, e certamente, eu descobri que eu não estava sozinha através dos livros, eu acho, argumentavelmente mais do que através das amizades na minha infância, porque eu era uma criança introvertida, e foi pela leitura que eu percebi que não estava sozinha em muitos ní­veis.

Stephen Fry: Certamente. E é uma ansiedade central, se você quiser, que os leitores são sempre confrontados com Harry, é que existe essa proximidade dele com o Voldemort, “Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado, mas tem que ser nomeado”. E eu acho que quando a série progride e nós sentimos, “céus, não falta muito agora, o que vai acontecer?”. Existe uma grande quantidade de especulação, e eu não estou pedindo para você dar nenhuma resposta, mas há uma grande quantidade de especulação sobre quão próximo esse relacionamento é entre o bruxo mais sombrio de todos e nosso herói, que salvou o mundo.

J.K. Rowling: Bem, a pergunta que me tem sido mais feita é “Voldemort é o pai de Harry?”. E, é claro, essa é uma pergunta muito Guerra nas Estrelas…

Stephen Fry: Exatamente. Totalmente Guerra nas Estrelas.

J.K. Rowling: …realmente, não é? E, não, eles não vão acabar sendo Darth Vader e Luke Skywalker. Eles não são, biologicamente falando, relacionados um com o outro.

Stephen Fry: Agora, essa é uma útima resposta para se ter. Eu acho que um dos finais mais previstos “não sei se você sabe disso” até onde vão as apostas, é que Harry vai finalmente derrotar Voldemort à custas dos próprios poderes, e ele vai acabar no mundo como um trouxa comum. [JKR se engasga teatralmente] O que é uma idéia extraordinária.

J.K. Rowling: É um bom encerramento.

Stephen Fry: É um bom encerramento! Você pode pegá-lo emprestado se quiser.

J.K. Rowling: E ser processada por plágio por 13 milhões de crianças.

Stephen Fry: Esse é o seu problema, não é? Você não tem permissão para ler nada…

J.K. Rowling: Não, eu não tenho.

Stephen Fry: …escrito por outra pessoa, só pela possibilidade. Bem, vamos pensar no mundo que você usou, em termos de tradição, se você quiser, desde as fadinhas até, você sabe, trouxas e, você sabe, menções de tipos especí­ficos de plantas, como a mandrágora e por ai vai.
Tudo isso é real e muitas crianças vão, é claro, imaginar que você os inventou completamente.

J.K. Rowling: Eu tomei liberdades horríveis com o folclore e a mitologia, mas eu não sinto muita vergonha por isso, porque o folclore britânico e a mitologia britânica são mitologias completamente bastardas. Você sabe, nós fomos invadidos por outros povos, nós nos apropriamos de seus deuses, nós pegamos suas criaturas mágicas, e nós soldamos tudo junto para fazer, como eu chamaria, um dos folclores mais ricos do mundo, porque é tão variado. Então eu não me sinto coagida por ter pego emprestado tão livremente dessa cultura, adicionando um pouco de coisas minhas.

Stephen Fry: Certamente.

J.K. Rowling: Mas você tem razão, sim. As crianças sabem, obviamente, que eu não inventei os unicórnios, mas eu tive que explicar freqüentemente que eu não inventei os hipogrifos. Embora os hipogrifos sejam bastante obscuros, eu procurei, porque quando eu uso uma criatura que eu sei que é uma entidade mitológica eu gosto de saber tudo que puder sobre ela. Eu posso não usar tudo, mas estudar deixa as coisas mais consistentes para o meu enredo. Existe muito pouco sobre hipogrifos. E eu pude ler…

Stephen Fry: É o mapa, não é? O “Aqui tem hipogrifos”.

J.K. Rowling: Exatamente. “Aqui tem hipogrifos”, sim.

Stephen Fry: Como o “Heffalump do Pooh” (apareceu mais recentemente em “Pooh’s Heffalump Movi”, de 2005. “Pooh e o Efalante”, no Brasil).

J.K. Rowling: Mas parece que eles não foram observados de perto pelos muitos naturalistas medievais, então eu pude ter liberdades.

Stephen Fry: Eu acredito que eles são, como o nome já diz, e isso já nos leva a sua outra paixão, que é a lí­ngua em si, e no ní­vel mais básico tem as palavras e as derivações de hipogrifo que são, claro, uma mistura da idéia de…

J.K. Rowling: Cavalo.

Stephen Fry: Do galês “griffin” (grifo, em português), animal mitológico com cabeça de águia e garras de leão, e de cavalo em grego, que é hippo.

J.K. Rowling: Está certo.

Stephen Fry: …que é um exemplo perfeito, como você diz, da bastadização do folclore inglês, como da nossa lí­ngua.

J.K. Rowling: Arcano. Como a nossa lí­ngua.

Stephen Fry: É a mistura perfeita.

J.K. Rowling: Que é o que torna nossa lí­ngua tão rica.

Stephen Fry Exatamente.

J.K. Rowling: Nobre, e texturizada, e eu adoro isso.

Stephen Fry: E até Mundungo tem um significado.

J.K. Rowling: Mundungo.

Stephen Fry: Isso não é maravilhoso?

J.K. Rowling: Não é uma palavra fantástica?

Stephen Fry: E o que ela significa?

J.K. Rowling: Tabaco de baixa qualidade, fedido, o que realmente se aplica a ele.

Stephen Fry: Exatamente. Não é perfeito? Agora, você realmente procura em livros de palavras raras ou OED (Oxford English Dictionary: Dicionário Oxford de Inglês), ou outras coisas, ou são apenas coisas que você de alguma forma conhece, porque você tem uma boa memória para palavras?

J.K. Rowling: Hm… Eu não fico procurando em livros. Elas geralmente são coisas que eu peguei ou em que eu tropecei nas minhas leituras. A exceção foi Gilderoy – Gilderoy Lockhart. O nome Lockhart, bem, eu sei que é um sobrenome bem comum na Escócia.

Stephen Fry: Sim.

J.K. Rowling: …eu o encontrei em um memorial de guerra. Eu estava procurando um sobrenome charmoso, intenso, e Lockhart saltou aos meus olhos nesse memorial de guerra, e foi isso. Não consegui achar um nome cristão. E eu estava folheando o Dictionary of Phrase and Fable (Dicionário de Expressões e Fábulas) uma noite. Eu estava conscientemente procurando coisas em geral, e eu vi Gilderoy, que era realmente um homem da estrada, e um patife realmente lindo.

Stephen Fry: Sério?

J.K. Rowling: E Gilderoy Lockhart, simplesmente soou perfeito.

Stephen Fry: É perfeito, perfeito…

J.K. Rowling: Impressionante, e ao mesmo tempo, meio vazio, claro.

Stephen Fry: De fato, como nós sabemos, ele é.

J.K. Rowling: Como sabemos.

Stephen Fry: Então, para chegar à parte que realmente importa, que sou eu.

J.K. Rowling: Sim, vamos, vamos falar de você.

Stephen Fry: Eu me pergunto se o jeito com que eu li os livros alterou a forma como você os escreve.

J.K. Rowling: Eu sei que eu já te disse isso antes. Houve uma época em que Jéssica, minha filha, que agora tem dez anos – ela simplesmente ama as fitas – e houve uma época em que eu estava escrevendo Cálice de Fogo, em particular, quando eu sentava para trabalhar a noite, eu a ouvia escutando a sua leitura do quarto dela, que era uma experiência realmente complicada estar escrevendo um livro enquanto escutava você lendo Câmara ou, sabe, Azkaban.

Stephen Fry: Sim.

J.K. Rowling: Era bizarro, e eu sentia que eu não podia escapar de Harry Potter. Não havia saída. Eu podia ouvi-lo, e eu podia vê-lo, e eu estava escrevendo sobre ele.

Stephen Fry: Sim. Certamente, eu preciso dizer, sem querer ser apenas galante, que as formas, as frases, o equilí­brio das sentenças fazem dos livros uma delícia de se ler nesse sentido.

J.K. Rowling: Bem, isso é muito gentil, e isso é uma delicia de se ouvir.

Stephen Fry: É, realmente… às vezes escritores têm um senso maravilhoso de escrita para a página e as palavras acontecem naquela parte do cérebro que… mas realmente, é uma situação terrivelmente difí­cil.

J.K. Rowling: Veja, eu adoro escrever diálogos.

Stephen Fry: Sim.

J.K. Rowling: Eu realmente adoro escrever diálogos. E quando eu escuto você lendo os diálogos, me dá todo um novo sentimento prazeroso, porque eu nunca leio meu próprio trabalho em voz alta. E ouvir os diálogos sendo ditos, e eu sempre escuto você dizendo as falas antes de escutar os atores falando, é muito prazeroso, porque são coisas que eu adorei escrever.

Stephen Fry: Cada vez que eu leio um livro novo, tem um CD que o engenheiro do estúdio de som produz com todos os personagens.

J.K. Rowling: Eu lembro, sim.

Stephen Fry: Quase vai ter que ser um DVD da próxima vez. [Risos]

J.K. Rowling: Oh, me desculpe!

Stephen Fry: É para que eu possa me lembrar como, você sabe, como Lilá falava, ou como, você sabe… como cada personagem em particular.

J.K. Rowling: Claro. Jessica queria saber como você faz a voz da Hermione. Ela acha você é brilhante fazendo a voz da Hermione e ela não consegue entender como alguém com uma voz tão grossa quanto você consegue fazer uma voz de menina, então eu estava pra te perguntar.

Stephen Fry: Essa é uma pergunta interessante. Eu sempre adorei o comediante escocês Stanley Baxter. Você se lembra dele?

J.K. Rowling: Oh, sim. [Risos]

Stephen Fry: E eu notei desde cedo, quando eu tinha dez anos, que quando ele fazia uma mulher, ele normalmente engrossava mais a sua voz. Então ao invéz de tentar fazer um tipo de falsete, ele fazia “olá, eu sou Faith Douche”. [JKR ri] Ou alguma personagem estranha como essa. E realmente, para muitas mulheres, isso funciona muito bem.
Não para menininhas, mas para mulheres adultas isso funciona muito bem.

J.K. Rowling: Então amaciando a voz, na verdade, mais do que…

Stephen Fry: É como amaciar, exatamente.

J.K. Rowling: Eu me lembro de ter visto você gravando, e você me disse, “É muito difí­cil assoviar alguma coisa sem nenhuma consoante sibilante”. [Ambos riem] Alguém sibilou algo como, “não faça isso”. [SF ri energeticamente] Essa foi outra influência que você teve sobre mim. Toda vez que eu quero que alguém sibile, o que o Snape faz muito, eu preciso checar se há realmente um “s” antes de eu…

Stephen Fry: Sim.

J.K. Rowling: Antes de eu dizer que eles fizeram isso.

Stephen Fry: Você fez isso com o Snape e todos ao redor dele. Ele ficou com três “s” pra ele, e sua casa ganhou um “s”, e ele foi um Sonserino, isso você sabe, o tempo todo, herpético, acho que é esse o adjetivo.

J.K. Rowling: Sim, certo.

Stephen Fry: Todo o trabalho tipo cobra acabou. Agora, uma questão de que tenho certeza de que te fazem muito, e é de gerações atuais, o herói infantil ideal é Harry Potter. Mas isso não existia quando você era criança. Qual era aquele que você procurava, aquele com quem você sonhava estar?

J.K. Rowling: Vários e vários.

Stephen Fry: Vários.

J.K. Rowling: Eu gostava a heroí­na de The Little White Horse (O Cavalinho Branco, sem publicação no Brasil) porque ela era bem comum, e eu era comum, e a maioria das heroí­nas são muito bonitas. Ela era sardenta, e tinha cabelos ruivos, e eu me identificava muito com ela.

Stephen Fry: Eloise era assim também.

J.K. Rowling: Sim, eu amo a Eloise.

Stephen Fry: Eu amava a Eloise.

J.K. Rowling: Existiam tantos. Eu amava E. Nesbit. Ela provavelmente ainda é a autora infantil com quem eu mais me identifico. Ela não era muito sentimental.

Stephen Fry: Não era, não?

J.K. Rowling: E ela amava um detalhe esquisito. [SF ri] Então, hm, sim, eu achava que ela era muito, muito boa. Eu acho que escritoras em geral são menos sentimentais em relação à infância do que os escritores, na minha opinião.

Stephen Fry: Acho que você tem absoluta razão. É uma coisa estranha, a ficção infantil. Há o estilo de aventuras para meninos… Que, você sabe, eu acho o maior exemplo a Ilha do Tesouro.

Stephen Fry: Que é um dos livros mais imaculadamente escritos, de qualquer gênero.

J.K. Rowling: Que é… é um livro maravilhoso e que eu também adoro, sim.

Stephen Fry: É realmente um grande livro, não é? Sim. E ele, realmente, quase não tem garotas na história.

J.K. Rowling: Isso mesmo.

Stephen Fry: Mas o que você fez foi um livro de aventuras para meninos, mas…

J.K. Rowling: Mas com garotas. [Risos]

Stephen Fry: …é também um livro de meninas. O que é extraordinário, na verdade. E, você sabe, não se deve parar de falar da idéia de ter um gênero nele. Eu me lembro de ter visto em um romance de Martin Amis – acho que foi The information – as personagens tendo uma grande discussão sobre esse assunto. Você sabe, ele realmente deixa a mesa de jantar por causa da conversa, você sabe, “Mulheres lêem certos tipos de livros e homens lêem outros tipos de livros”. E que sempre vai ser assim.
Mas você acha… Eu espero que você receba mais cartas de mulheres, de meninas, simplesmente porque meninas são melhores escrevendo cartas, como você disse. [Risos]

J.K. Rowling: Eu tenho uma teoria. Eu era aproximadamente 50% cada, e minha teoria é que esses pais estavam tão assustados por seus filhos estarem lendo que eles os incitavam a escrever para mim com a esperança de que esse entusiasmo continuasse. E eu ocasionalmente recebia cartas extraordinárias de meninos – cartas muito, muito, muito tocantes de meninos. Argumentativamente mais tocantes, particularmente quando é uma carta escrita por alguém que obviamente não acha que escrever é muito fácil, me dizendo que era o primeiro livro que eles já tinham lido e que eles tinham realmente gostado.

Stephen Fry: É um ótimo elogio.

J.K. Rowling: Oh sim, é mesmo.

Stephen Fry: Um pensamento extraordinário, e deve te fazer ficar toda corada e…

J.K. Rowling: Realmente me faz ficar corada e encabulada. [Ambos riem]

Stephen Fry: Exatamente, sim. “Quão bom é um livro”, disse Alice, “sem figuras e conversas” em Alice e o Paí­s das Maravilhas, que é um livro que eu sempre acho que os adultos gostam mais do que as crianças.

J.K. Rowling: Eu também acho.

Stephen Fry: Mas é um comentário esplêndido e muito sofisticado, e acho que é por isso que os adultos gostam tanto da Alice. Eu imagino se, o simples custo da primeira edição do seu primeiro livro, Harry Potter e a Pedra Filosofal, a questão das ilustrações veio à tona? E se foi apenas tipo, “bem, é o maior romance infantil que nós já publicamos, em termos de tamanho”…

J.K. Rowling: Sim.

Stephen Fry: É bem longo. Nós não vamos aumentar o nosso custo chamando o Quentin Blake (famoso ilustrador britânico) ou outro.

J.K. Rowling: Não. Mas você tem absoluta razão. Essa foi exatamente a briga. Eles também acharam que as ilustrações poderiam atrair um público um pouco mais novo do que o que eles queriam.

Stephen Fry: Sim. Eu acho que acabou dando certo.

J.K. Rowling: E eles tinham razão. A edição americana, que é um livro lindamente produzido, devo dizer, tem pequenos desenhos no começo de cada capítulo, que eu gosto. É uma pequena prova do que está por vir. Mas não é grande, de página inteira.

Stephen Fry: Páginas coloridas.

J.K. Rowling: Exatamente, páginas coloridas. Se bem que eu adorava essas páginas. Eu folheava para encontrá-las antes de ler os livros.

Stephen Fry: Ah, claro. Claro. Havia um cheiro nelas, porque o papel era diferente e brilhante.

J.K. Rowling: Havia um cheiro peculiar.

Stephen Fry: Ah, e às vezes eles eram assustadores.

J.K. Rowling: Sim.

Stephen Fry: Você sabia o que estava vindo e você não gostou por alguma razão.

J.K. Rowling: Sim.

Stephen Fry: Eu ainda me lembro de todos. É estranho, não é? Sobre o assunto da América, você publicou pela Scholastic, eu acho.

J.K. Rowling: Scholastic, sim.

Stephen Fry: Eu me lembro de você me contando da sua primeira fila para autógrafos na América e…

J.K. Rowling: Ah, isso, sim.

Stephen Fry: Você esperava alguns meninos com uma cicatriz desenhada na testa, mas veio…

J.K. Rowling: Tinha…

Stephen Fry: Você teve uma mulher coberta de ouro.

J.K. Rowling: Isso mesmo.

Stephen Fry: Nos fale sobre ela!

J.K. Rowling: Veio uma mulher toda vestida de Dama Gorda, cheia de colares em volta do pescoço. Isso foi extraordinário, e é o mais perto que eu já cheguei de ser uma pop star. [SF ri] Eu passei pela porta do fundo da loja, e havia muitos gritos, gritos literais e luzes de câmeras e eu não sabia onde estava. Eu fiquei completamente desorientada. Eu acho que, como mecanismo de defesa, quando esses eventos acabam, eu meio que desligo, e penso que eu preciso desligar e pensar que aquilo foi uma anomalia esquisita. E depois eu preciso voltar ao meu escritório e simplesmente me convencer de que aquele é o meu mundo.

Stephen Fry: Certo.

J.K. Rowling: Eu acho que essa é uma pergunta muito difícil de me responder, e eu escrevi essas personagens, então eu não vejo porque você deveria achar que é mais fácil, realmente, mas eu vou perguntar. Existe alguma personagem com quem você se identifica?

Stephen Fry: A sabedoria simples e o leve brilho…

J.K. Rowling: De Dumbledore.

Stephen Fry: …da qualidade de Dumbledore. Eu sempre amei grandes professores. O primeiro personagem que eu criei para um programa de rádio foi o velho Don de Cambridge, Donald Trefusis.

J.K. Rowling: Eu costuma ouvir Donald Trefusis, sim.

Stephen Fry: Você lembra de um Arcebispo de Canterbury chamado Ramsay, o último dos realmente grandes e monumentais bispos da Igreja Inglesa? E eu não me refiro ao macaco (1), é claro. [JKR ri] E eu me lembro de tê-lo visto em uma entrevista com um cara tipo o Malcolm Muggeridge (2) que dizia “Agora você vai ser um homem muito sábio”. E ele disse “Sou, sou, sou sábio, eu penso, sou sábio, sou?” [Ambos riem] Então o apresentador disse: “Bem, Sua Excelência, talvez você possa explicar o que você acha que é a sabedoria?”. “A sabedoria, sabedoria. Hmm. Hmm, a sabedoria. Eu acho que a capacidade de saber lidar com as coisas”.

J.K. Rowling: Ah, é isso”

Stephen Fry: Que é uma definição maravilhosa, você sabe. É tão precisa, quer dizer ele vem, como você sabe, a palavra wisdom (sabedoria) é derivada de wit (inteligência, sagacidade), witdom, wit-knowing, knowing (inteligente) em alemão, wissenschaft, e por ai vai, e em wit é maravilha…

J.K. Rowling: Tá vendo, você é o Dumbledore. [SF ri] Um professor de nascença.

Stephen Fry: E a capacidade e lidar com as coisas.

J.K. Rowling: Sim.

Stephen Fry: Não é o quanto você sabe.

J.K. Rowling: Não.

Stephen Fry: E sente…

J.K. Rowling: Algo completamente diferente.

Stephen Fry: …que com essa caracterí­stica às vezes maravilhosa, às vezes cansada, gasta, que Dumbledore tem, porque ele experimentou tanta coisa, e ele pode lidar com tudo isso, mas ele quase preferia não poder.

J.K. Rowling: Perfeito. É exatamente isso. Dumbledore expressa esse arrependimento por ter sido sempre a pessoa que sabia de tudo, e que sentia o fardo de saber. E ele preferia não saber de tudo.

Stephen Fry: Mas de todas as pessoas, claro, Harry Potter é a única, porque ele é a consciência no livro, Harry é aquele que… se submete aos testes e às provas de fogo e todo o tipo de coisas. E como com qualquer herói, você se mede em relação a ele. E há momentos em que eu penso que eu simplesmente fugiria, que eu não ia ligar. Eu acenaria a minha varinha mesmo que eu não devesse, sabe.

J.K. Rowling: Meu comentário favorito sobre Harry, na época do primeiro livro, foi de um estudante, que foi entrevistado pela televisão, e quando perguntaram porque ele gostava tanto de Harry – o personagem -, ele disse: “ele parece não saber o que está acontecendo a maior parte do tempo, e eu também não sei”. [SF ri]

Stephen Fry: Ah, isso é bom! Eu acho que tem momentos em que você – sabe, eu acho que eu te disse isso quando eu li pela primeira vez a Ordem da Fênix – foi, por que você precisa ser tão cruel com ele?

J.K. Rowling: Bem, sobre Ordem da Fênix, eu diria, em auto-defesa – Harry precisava disso, porque o que eu quero dizer sobre Harry é que ele é um herói. Porque ele é um herói muito humano, e isso, obviamente, dá um contraste, entre ele, como um herói muito humano, e Voldemort, que deliberadamente se desumanizou.

Stephen Fry: Sim.

J.K. Rowling: E portanto, Harry teve que chegar a um ponto em que ele quase se quebra, e que ele não queria mais fazer isso, ele não queria mais ser o herói – e ele perderia muito. E ele não queria perder mais nada. Então isso – a Ordem da Fênix foi o ponto em que eu decidi que ele se quebraria.

Stephen Fry: Certo.

J.K. Rowling: E agora ele vai renascer das cinzas da força.

Stephen Fry: É uma energia tão primária, particulamente com as crianças, e nós perdemos isso, eu acho, no nosso perigo, o horror pela injustiça, que é de certa forma um dos motores de força primária em todos os livros, não é?

J.K. Rowling: O sentimento do menino de doze anos que foi injustamente acusado – o senso de horror que queima. Você tem razão, nós não devíamos perder isso.

Stephen Fry: Sim.

J.K. Rowling: Mas nós perdemos, normalmente.

Stephen Fry: É

J.K. Rowling: Os adultos perdem.

Stephen Fry: É. Isso não está certo.

J.K Rowling: Eu acho que a coisa que eu acho mais extraordinária é – eu não sei quantas personagens eu coloquei na trama até agora – como você arruma vozes pra todos eles?

Stephen Fry: Essa não é uma coisa fácil de responder. Quer dizer, às vezes eles aparecem e eu torço pra, genericamente, se não conseguir fazer exatamente a voz que você imaginou, alguma coisa na mesma área. Quer dizer, há personagens como a Tonks que, por alguma razão, eu instintivamente senti que ela tinha que falar um pouco como se fosse de Burnley, sabe, um sotaque tipo Jane Horrocks. [JKR ri] E simplesmente pareceu ficar perfeito pra ela.

J.K. Rowling: Sim, realmente funciounou.

Stephen Fry: E eu acho que Celia, a produtora, tinha a mesma idéia na cabeça, que devia ser assim.
E você não colocou nada no livro, não tem nenhuma grafia específica para o sotaque dela.

J.K. Rowling: Não.

Stephen Fry: E não tem nada sobre a escrita do norte. É só algo que está implí­cito. E eu tenho certeza que é apenas subconsciente para você às vezes, faz uma personagem pequena que usa um tipo de fala que me faz pensar, “Bem, isso soa um pouco mais londrino”, ou “essa é uma personagem mais velha”, ou “essa é uma personagem mais nova”.

J.K. Rowling: Porque você sabia que o Hagrid era do leste do pais.

Stephen Fry: Sim.

J.K. Rowling: E essa foi a única coisa que eu quis te avisar antes de você começar a leitura, e meu plano foi adiado. Era a primeira vez que nos vimos. Eu cheguei lá, e uma das primeiras coisas que você me disse foi: “Eu fiz o Hagrid com um sotaque de Somerset” (3).

Stephen Fry: Sim.

J.K. Rowling: E eu pensei, “ah, graças a Deus por isso”, porque eu pensei, se você o fizesse com um sotaque de Glasgow [SF ri], sabe, eu poderia ter… bem, essa era a única personagem que eu me sentia protetora em relação ao sotaque…

Stephen Fry: Sim, claro.

J.K. Rowling: O que eu realmente gosto na sua leitura é que os sotaques não ficam forçados. Eu não sinto como se você estivesse querendo se mostrar com algo do tipo, “olha quantos sotaques eu consigo fazer”, ou quantas vozes. Você não coloca uma barreira entre o ouvinte e a história, sabe como é?

Stephen Fry: Sei perfeitamente.

J.K. Rowling: Entende o que eu quero dizer?

Stephen Fry: Essa é exatamente a minha intenção, não forçar a barra em nenhum sentido. É para as pessoas que não ouviram a voz depois de um tempo. E você sabe quando você está lendo e às vezes você se perde e acaba tendo que voltar… porque você sabe que vai receber cartas e muita falação. E então você pode ler um capítulo inteiro e não perceber que sequer virou a página.
Quer dizer, você sabe, a impressão e o papel não estavam lá. E tem que ser a mesma coisa com a minha voz quando eles estão ouvindo, sabe? O primeiro parágrafo, mas depois imediatamente suas mentes estão no mundo dos Dursley e de Hogwarts e no Nôitebus e de tudo o mais, e eles não podem perceber que sou eu fazendo isso. E Celia, a produtora, e Helen são muito boas se certificando de que eu não forço demais uma voz ou mí­mica, sabe, forço alguma coisa. E a única outra coisa que importa é o compasso, sabe… Eu acho que é muito importante recomeçar uma página.

J.K. Rowling: Sim, sim.

Stephen Fry: Sabe? Porque de outra forma você pode ficar um pouco entediado. E… mas você não deve forçar nesse sentido também.

J.K. Rowling: Então, eu não acho que eu devo te empurrar muito, mas tem alguma cena que você gostou particularmente, que você se lembre, de ter lido?

Stephen Fry: Bem, o, hmm… toda aquela coisa do clímax de Ordem da Fênix, sabe, nas entranhas do Ministério da Magia e tal. Eu adoro o fato de que era tão assustador e dramático e eu amei, sabe, criar a tensão e tal das estranhas orbes de vidro e o que elas significariam e ficar presos atrás das portas.

J.K. Rowling: Houve algumas crianças que me disseram que levaram melhor o livro quando ouviram a sua leitura do que quando leram sozinhas, e acho que isso aconteceu com Ordem, porque as pessoas tiveram que esperar três anos por ele, e então elas devoraram o livro.

Stephen Fry: Eles leram rápido demais. Eles foram galopando e se perderam no enredo.

J.K. Rowling: Eles realmente se apressaram. Exatamente. E depois eu tive leitores me dizendo, “eu li de novo, e há muito mais do que eu achei que tivesse”. E isso é porque você leu em uma tarde, não é? Então escutar você, eu acho, realmente os deu um senso de onde eles estavam.

Stephen Fry: É verdade mesmo que você já tem tudo planejado?

J.K. Rowling: Sim, é realmente verdade.

Stephen Fry: Isso é incrí­vel!

J.K. Rowling: Sim, eu sei o que vai acontecer no final. E às vezes eu me arrepio quando alguém adivinha certo alguma coisa que está pra acontecer, e eu me apavoro e penso, “é tão obvio assim?”. E então alguém fala alguma coisa que é completamente errada e então eu me acalmo e penso, “não, obviamente não é tão óbvio assim!”.

Stephen Fry: Que bom.

J.K. Rowling: Eu sempre deixo espaço para eu poder passear pela trama, mas eu estou basicamente seguindo a trama. Muito do que acontece no seis está relacionado com o que acontece no sete. E você realmente derrapa no final do seis direto pro sete. Você sabe, não é a aventura discreta em que os outros estão, mesmo tendo sempre esse tema base de Harry encarando Voldemort, em todo caso, e – você sabe melhor do que ninguém – houve uma aventura que se resolveu sozinha.

Stephen Fry: Sim, exatamente.

J.K. Rowling: Apesar de que no seis, embora o fim posso ser visto como definitivo em um sentido, você sente fortemente que o enredo ainda não acabou e que ele vai ter que continuar. É um sentimento estranho. Pela primeira vez eu estou consciente de que estou acabando.

Stephen Fry: O fim está à vista.

J.K. Rowling: O fim está à vista, sim.

Stephen Fry: É extraordinário.

J.K. Rowling: Sim.

Stephen Fry: Você sempre vai escrever porque é uma necessidade que você tem. Você acha que vai escrever para crianças mesmo da próxima vez que começar algo novo?

J.K. Rowling: Hmm… tem um…

Stephen Fry: Você vai escrever para as crianças que eram crianças e agora são adultos? As que foram da sua primeira geração?

J.K. Rowling: Coitadinhos, nunca escapam de mim. Hmm… eu não sei. Realmente eu não sei. Eu… Tem um outro livro infantil que eu estou começando a moldar que eu até gosto, que é para crianças um pouco mais novas, eu diria. Mas tem outras coisas que eu queria escrever, também. Mas eu acho que eu vou precisar encontrar um pseudônimo e escrevê-los secretamente.

Stephen Fry: Sim.

J.K. Rowling: Porque eu estou com muito medo – você pode imaginar…

Stephen Fry: Ah, claro.

J.K. Rowling: …do exagero implacável que vai seguir um livro pós-Harry Potter…

Stephen Fry: Sim.

J.K. Rowling: …e eu não tenho certeza se eu quero passar por isso.

Stephen Fry: Bem, com esse vislumbre atormentado do futuro de Jo, e da questão iminente sobre se nós vamos conseguir reconhecer seu trabalho pós-Harry, nós nos separamos, e eu caminho para mais 600 páginas de Harry. Eu mal posso esperar pelo livro sete. Como muitos fãs, eu quero saber o que vai acontecer no final. Mas ao mesmo tempo eu nem quero que chegue ao fim.

N/T: (1) macaco – ele usa a palavra “primate”, que significa tanto bispo quanto primata, ou seja macacos, lêmures.
(2) Malcolm Muggeridge – jornalista e satirista inglês, morto em 90, que se converteu ao Cristianismo Romano no fim da vida.
(3) Somerset – Sudeste da Inglaterra.

Traduzido por: Patrí­cia Monteiro D. de Abreu em 23/04/2007.
Revisado por: Antônio Carlos de M. Neto em 22/03/2008 e Fernanda Midori em 30/07/2010.
Postado por: Fernando Nery Filho em 30/04/2007.
Entrevista original no Accio Quote aqui.