Johnstone, Anne. “Feliz aniversário Harry: 10 anos de magia da geração Potter”. The Herald, 30 de junho de 2007.

Gira e sacode. A amiga sabe-tudo de Harry, Hermione Granger, consegue voltar no tempo, mas talvez minha varinha não tenha o ingrediente mágico apropriado (um pêlo de unicórnio, uma pena da cauda de uma fênix ou uma fibra do coração de um dragão) porque eu estou tendo dificuldades em me transportar de volta ao Nicolson’s Cafe, em Edimburgo, em meu primeiro encontro com Joanne Rowling.

Algumas semanas antes da publicação de Harry Potter e a Pedra Filosofal, há 10 anos, completados nesta semana, eu havia contatado a editora Bloomsbury pedindo uma entrevista, após minha filha Laura e sua amiga, Jill Allardice, terem ecoado o grande entusiasmo que senti por esse livro.

A resposta da editora foi empolgante, pois autores emergentes lutam por uma cobertura da imprensa. Eu cheguei tão atrasada que o fotógrafo do The Herald havia ido embora de mãos vazias, não tendo conseguido identificar por conta própria a evidente jovem ruiva em uma jaqueta de seda azul clara, J.K. Rowling. Ele estava esperando que ela fosse uma senhora rabugenta.

Ela riu da confusão e começou a contar sua própria história enquanto bebia um resto de café preto e fumava cigarros Marlboro Lights. Na semana anterior, editoras rivais estiveram dando lances de milhares de dólares para conseguir os direitos autorais americanos, o que parecia com o tipo de coisa de fantasia para essa autora cujo empréstimo de £2500 do Scottish Arts Council era tudo que estava entre ela e a pobreza meses antes.

Minha história começou: “Três anos atrás, Joanne Rowling desembarcou em Edimburgo com um bebê em um braço e um manuscrito surrado debaixo do outro. Fora a famosa mala desmantelada, ela não possuía mais nada”. Após ser recontada mil vezes pode parecer uma música de country velha cantada de trás para frente, mas na época foi algo simplesmente desgostoso. Tendo criado, durante uma viagem de trem em 1990, um menino bruxo, órfão e uma escola de magia, ela começou a esculpir um livro do que ela descreve como “uma incoerente massa de aventuras”, usando a antiga noção de uma mágica pedra filosofal como tema central.

Incerta sobre como seu trabalho seria recebido, Rowling ainda cogitava, quando nos encontramos, retornar a ensinar francês durante meio-período.

Revendo os fatos, eu estava muito mais confiante do que ela sobre seu caminho até a grandeza. Muitos anos depois, ela me contou que às vezes pensava que fosse temperamentalmente melhor adaptada a ser “uma escritora moderadamente bem-sucedida”, com mais tempo para escrever e sem um holofote persistente sobre ela.

A publicidade começou numa escala moderada. Em junho de 1997, a editora Bloomsbury a trouxe à minha pequena biblioteca local para encontrar uma classe primária, incluindo Alistair Ogilvy, que se lembra desta ocasião. O que arremessou Rowling rapidamente da escuridão para o posterior estrelato global não foi nenhuma cínica campanha de marketing, mas o poder do sussurro no pátio da escola, amplificado pela mágica moderna da comunicação via internet. Não há simplesmente nada que substitua crianças comentando com seus amigos: “Você tem que ler isso. É fantástico”.

Outra entrevista em junho de 2000 envolveu uma série de telefonemas e um acordo secreto que me proibiu divulgar qualquer coisa sobre o “livro quatro” antes de 8 de julho. Mesmo loira e vestida com roupas caras, Rowling, no entanto, estava pálida. Ela quase tivera um colapso após descobrir uma séria falha na trama da grande pilha de papéis que se tornou Harry Potter e o Cálice de Fogo. O livro necessitava ser todo reescrito. Cada vez que nos encontrávamos brincávamos que a propaganda exagerada em torno dos livros não poderia chegar mais longe. Estávamos cada vez mais erradas, o que estava se tornando um problema para alguém que havia admitido ter “fobia limítrofe” de grandes multidões. Pais controladores quase começaram um tumulto num evento de autógrafos em Boston após 2000 fãs terem comparecido.

Inevitavelmente, um pouco da publicidade se tornou desagradável também. Enquanto ela se isolava em seu escritório e lutava com o problemático Cálice de Fogo, jornais que tiveram seus pedidos de entrevistas recusados a acusavam de ser indiferente e reclusa e tentavam achar seus “podres”. Rowling se vingou à sua própria maneira com a venenosa jornalista da imprensa marrom, Rita Skeeter, que acaba como um besouro. Houve massivas tentativas de analisar os livros de Potter como forma de evangelhos para pós-cristãos, New Labour Britain ficou entre a nostalgia pelo passado e a incerteza sobre o futuro. Houve fraudes simplistas com personagens bi-dimensionais e tramas pobres. E houve muitas críticas contentes em desprezar seu trabalho classificando-o como repetitivo e convencional. A resposta dela: “Eu não os escrevi para vocês”.

Será que os livros Potter continuarão a conquistar novas gerações de jovens leitores em 2107? Tenho certeza que sim. Por quê? Como nas melhores fantasias, ela cria um extraordinário e fascinante mundo que atrai jovens leitores e os mantém lá. As crianças geralmente dizem que sentem como se estivessem “dentro” da história. Alguns dos últimos livros são, francamente, um pouco fracos, mas abra qualquer um dos três primeiros em qualquer página e o que te impressiona é sua colorida inventividade: quadros que falam, um Ford Anglia voador, Quadribol, o Chapéu Seletor, bebês-dragões alimentados com conhaque e sangue de galinha 12 anos, Jill Allardice descreveu Pedra Filosofal como “uma imaginação em alta”.

Ainda assim, todos os personagens humanos são perfeitamente reconhecíveis. Harry é um garoto comum, mas com uma diferença – seu mundo é nosso mundo, mas visto através de um espelho distorcido. Essas aventuras capturam a intensidade e vulnerabilidade da adolescência.

E as relações que as crianças têm umas com as outras são familiares também – às vezes elas brigam ou ficam desapontadas reciprocamente.

Harry não é nenhum herói 2-D. Ele também tem um lado obscuro. Por que mais o Chapéu Seletor de Hogwarts iria pensar em colocá-lo na esquiva Sonserina antes de optar pela gloriosa Grifinória? E por que a pena de fênix na varinha de Harry se combina somente com a da varinha que o fez a cicatriz em forma raio? Tudo está prestes a ser revelado.

Será que Harry vai sobreviver no livro final a ser lançado em 21 de julho? Seus palpites são tão bons quanto os meus, mas vale lembrar algo que Joanne disse em 2000 quando estávamos discutindo a importância da dramática tensão em seus livros de haver limites ao que é suscetível à magia. Uma coisa fundamental é que não se pode reverter a morte. “Isso é determinado”, ela disse, “embora no livro sete você vá ver o quão perto se pode chegar”.

Assim como Laura, eu detesto a publicidade vergonhosa que acompanha os filmes Potter: os horrendos modelos de plástico, jogos idiotas e caríssimas balas mascaradas como Feijõezinhos de Todos os Sabores. Mas estarei lá com todas as outras pessoas para pegar minha cópia de Harry Potter e as Relíquias da Morte. Por quê? Por causa da criança em mim.

Nós lemos primeiro’: a prévia Potter que deixou três jovens leitores querendo mais.

Alistair Ogilvy, 19 anos
Eu de verdade não acho que nossa classe primária de seis de uma pequena vila em Stirlingshire soubesse o quão sortudos nós éramos por conhecer J.K. Rowling, muito antes de ela ter se tornado um nome familiar.

Foi 10 anos atrás, exatamente na época em que o primeiro livro foi publicado. Nossa professora tinha conseguido uma cópia-teste da Anne. Nós lemos alguns trechos na aula e os usamos para um projeto. Então nós estávamos todos loucos por Harry antes mesmo de o livro estar nas lojas.

Nunca tendo encontrado um autor antes, eu não sabia o que esperar, mas J.K. Rowling era um amor. Eu lembro ter ficado hipnotizado pela expressão em sua voz conforme ela lia para nós.

Você poderia ver, pela forma como ela respondia às nossas perguntas, que ela conhecia os personagens muito bem. Nós tínhamos levado conosco nossos desenhos e poemas baseados no livro e ela parecia estar verdadeiramente maravilhada com eles. No final da sessão cada um de nós recebeu cópias autografadas de Harry Potter e a Pedra Filosofal, o que nos fez sentir especiais.

Ficção fantástica sempre me atraiu. Eu cresci com livros como O Leão, a Feiticeira e o Quarda-roupa, e The Witches de Ronald Dahl, mas nada se compara com os livros de Potter pela grande vontade em descobrir o que acontece em seguida.

Para nós, significou muito nos encontrarmos com uma pessoa tão criativa e eu acho que ela deixou uma grande impressão em todos nós.

Laura Balfour (filha de Anne), 21 anos
Algum dia em torno de janeiro de 1997, eu encontrei um manuscrito dos dois primeiros capítulos de Harry Potter e a Pedra Filosofal na pasta de minha mãe. Eu li em alguns minutos e lembro-me de ter implorado a ela para que de alguma fora (de qualquer forma!) arranjasse o resto do livro. Era o modo como o livro te atraía para aquele mundo mágico do Beco Diagonal e Hogwarts que o fazia tão compulsivo.

De um jeito ou de outro, Harry Potter se tornou uma grande influência em minha vida, apesar do circo da mídia que rapidamente cercou a série e da nauseante atuação de Daniel Radcliffe nos filmes.

Por um longo tempo eu invejosamente guardei minha cópia-teste autografada (“Para Laura – Estou tão feliz que você tenha gostado desse livro – de Jo Rowling”), mas, no final das contas, com um coração um pouco pesado, eu invoquei a mágica de Sotheby’s para torná-lo um ano de aventuras no Kênia e na Austrália.

Não inteiramente por coincidência, eu fui parar em Oxford, uma espécie de Hogwarts terrestre, cheia de gárgulas, becas e dreaming spires, estudando para me formar em trato das criaturas mágicas. Bom, OK – biologia.

Jill Allardice, 22 anos
Faz 10 anos agora desde que uma cópia de Harry Potter e a Pedra Filosofal chegou à minha caixa de correio. Eu não estava muito impressionada pelo título – eu nunca havia ouvido falar de Harry Potter (imagine!) e não tinha a menor idéia do que era uma pedra filosofal, mas, não sendo aquela a recusar um livro, entrei nele.

As pessoas usam palavras do tipo “emocionante” e “interessante” com bastante casualidade nos dias de hoje, mas é exatamente assim que eu me lembro de meu primeiro encontro com Harry e companhia.

Havia um sentimento de expectativa desde a primeira página. Quando Anne perguntou qual era minha opinião alguns dias depois, eu já estava lendo pela quarta vez.

Quando ela levou minha cópia-teste para J.K. Rowling e voltou com uma mensagem autografada me agradecendo pelos meus “amáveis comentários”, eu fiquei maravilhada. Eu ainda o guardo como um tesouro.

Sou muito grata por ter tido a chance de ler o livro antes de ele realmente ter sido lançado, e de ter podido avaliar por conta própria sem a influência do entusiasmo do público.

Não mais leio cada novo livro várias vezes, ou fico em filas obsessivamente à meia-noite, mas ainda estou ansiosa pelo último livro. Tristemente, eu não tenho uma cópia adiantada dessa vez – terei que curtir lê-lo ao mesmo tempo em que todo mundo.

Traduzida por: Renata Grando em 06/08/2008.
Revisado por: Pablo Júnio em 30/09/2008.
Postado por: Vítor Werle em 08/10/2008.
Entrevista original aqui.