“Livros que fizeram diferença para J.K. Rowling”. O, The Oprah Magazine, janeiro de 2001.

Quando J.K. Rowling, autora dos livros enormemente populares de Harry Potter, veio visitar a O, The Oprah Magazine no outono passado, não sabíamos o que esperar. Rowling respondeu nossas perguntas sobre o bruxo preferido de todo mundo, a magia da leitura e seus próprios livros mais amados. No topo de sua lista está The Woman Who Walked Into Doors, do elogiado escritor irlandês Roddy Doyle. Este romance resoluto trata da relação de uma mulher com um homem violento de uma forma que traz um entendimento fresco ao assunto – e, longe de ser uma leitura disciplinar, é surpreendentemente cativante e enobrecedora.

O, The Oprah Magazine: Por que você ama The Woman Who Walked Into Doors?

J.K. Rowling: É o livro mais notável. Roddy Doyle entra na cabeça de sua personagem tão absolutamente, tão completamente. Não acho que já tenha encontrado uma personagem feminina tão acreditável e aparada de qualquer outro escritor heterossexual de qualquer época. Deveria enfatizar que me sentiria da mesma forma quanto ao livro se ele tivesse sido escrito por uma mulher; ainda acharia que foi a realização mais notável. Mas quando me sento e penso, ‘Um homem escreveu isso?’ – fenomenal. Ele criou uma mulher que, você imagina, vai ao banheiro defecar. Ele também deixa a ela sua dignidade, embora ela esteja passando por uma coisa horrível. E ele faz isso de uma forma tão sutil. Realmente acho ele um gênio. Seu diálogo é incensurável. E seu coração… você é totalmente atraído aos livros dele. Sou muito apaixonada por Roddy Doyle, e nunca o encontrei, o que é uma frustração para mim.

O: Bem, talvez você pudesse agora…

JKR: Meu editor edita o Roddy. E estou sempre sentindo falta dele! Mas poderia congelar se estivesse na mesma sala que ele.

O: Você está dizendo que é difícil escrever fora do seu gênero, mas escolheu criar Harry Potter. É difícil?

JKR: Se eu disser não agora, vai soar realmente arrogante. Mas já estava escrevendo o primeiro livro por seis meses antes de parar para pensar, ‘Por que ele é um garoto?’ E a resposta é, Ele é um garoto porque foi assim que veio. Se tivesse parado naquele ponto e mudado ele para Harriet, pareceria muito inventado. Minha consciência feminista é salvada por Hermione, que é o personagem mais brilhante. Amo Hermione como uma personagem. Ela é meio que uma caricatura de mim quando mais jovem. Era obcecada por ir bem academicamente, mas por trás disso, era insegura.

O: Também amamos Hermione! Nos identificamos!

JKR: Acho que temos um personagem feminino muito forte nela.

O: Você tem uma filha pequena. Você leu Harry Potter para ela?

JKR: Continuava achando que você tem que fazer 7 anos antes de ler Harry. E não segui essa ideia porque era injusto com ela, de verdade, que todas estas crianças na escola ficassem perguntando sobre estas coisas e ela não tivesse nenhuma resposta para elas. Então, comecei a ler Harry Potter para ela quando ela tinha seis anos. Agora, eles são seus livros favoritos, o que faz da minha vida muito mais fácil.

O: Você admira Roddy Doyle e Jane Austen – ambos os quais escrevem sobre distinções de classe. Você também faz isso em Harry Potter. Foi uma decisão consciente?

JKR: Bem, um jornalista alemão me disse, ‘Tem muita coisa sobre dinheiro nos livros de Harry Potter’. E nunca pensara realmente sobre aquilo antes. Mas as crianças estão extremamente conscientes do dinheiro – antes de saberem das classes. Uma criança não vai realmente perceber como outra criança segura um garfo e uma faca. Mas vai estar muito consciente de que a outra não tem mesada. Ou que não tem tanta mesada. Penso em mim quando tinha 11 anos. As crianças podem ser perversas, muito perversas. Então a distinção estava em Rony não ter os trajes do tamanho apropriado, sabe? E não poder comprar as coisas do carrinho. Ele tem que comer sanduíches feitos por sua mãe, embora não goste deles. Ter dinheiro o bastante para se adequar é uma faceta importante da vida – e o que é mais conformista que uma escola?

O: Acho que uma razão pela qual seus livros são tão populares é que eles não são higienizados. São muito reais.

JKR: Acho que sim. Espero que sim. O engraçado é que tenho pessoas me dizendo, ‘Ah, então você é uma defensora dos internatos?’ Não! Olha, você está rindo. Na América, as pessoas riem. Na Grã-Bretanha, é uma grande coisa. Na Grã-Bretanha é, ‘Ahá! Para qual internato você foi?’. Não fui a um internato. Harry Potter tem que estar num internato por razões de trama. Seria interessante se os personagens não pudessem acordar à noite e perambular por aí? Você teria que levá-los correndo da escola para casa, e então invadir a escola toda noite? E tem pessoas que acham que os livros são muito obscuros, muito assustadores. Depois que Câmara Secreta foi publicado, uma avó me escreveu e disse, ‘Fiquei atônita por vê-la encorajando a fuga.’ Foi meio que, ‘Tudo bem, oi?!’. Li a carta, e por um momento pensei, ‘Onde disse que fugir era bom?’. E então percebi que é uma ideia muito, muito literal das coisas. Harry rouba um carro, então é bom roubar carros – não! Não disse isso.

O: Seus livros criam um mundo acreditável no qual todos não são maravilhosos o tempo todo. Os personagens não são exemplos de como todas as crianças deveriam se comportar.

JKR: O que esquecemos é que as crianças levam toda essa vida escondida, por mais que sejam íntimas de seus pais. Estou consciente disso com minha filha de 7 anos. Não encontro isso constantemente, mas sei que é a realidade. É o vagaroso processo de separação – é um pouco subterrâneo. Tenho que estar consciente de que minha filha está levando uma vida de criança a qual não posso compartilhar. E isso é parte dos livros. Harry está numa posição única, porque não tem pais vivos. Então para ele, toda a vida é a vida infantil. Rony e Hermione voltam para um lugar seguro. Harry não tem um lugar seguro. De fato, ele encontra seu lugar seguro no lugar assustador.

O: Com tanta pressão nas suas costas, quando você encontra tempo para ler?

JKR: Nunca preciso encontrar tempo para ler. Quando as pessoas me dizem, ‘Ah, sim, amo ler. Adoraria ler, mas simplesmente não tenho tempo,’ fico pensando, ‘Como você pode não ter tempo?’ Leio quando estou secando meu cabelo. Leio no banho. Leio quando estou sentada no banheiro. Em qualquer lugar que possa fazer o trabalho com uma só mão, eu leio.

Fonte: http://www.oprah.com/obc/omag/obc_omag_200101_books.jhtml

Obrigado, Elisabet, por nos mandar esta!

Traduzido por: Renan Lazzarin em 13/01/2009.
Postado por: Vítor Werle em 22/01/2009.
Entrevista original no Accio Quote aqui.