Rowling, J.K. “De Sr. Darcy a Harry Potter via Lolita”. Sunday Herald, 21 de maio de 2000.

Nota do Editor: esta parece ser a transcrição das declarações feitas por Jo para um programa da BBC Radio 4 sobre pessoas famosas e seus livros favoritos. Existe uma reportagem de segunda mão do programa aqui.

Eu era uma criança baixinha de óculos que vivia principalmente com os livros e sonhando acordada. Eu costumava sair das nuvens periodicamente para inventar jogos, atormentar minha irmã quando ela não os jogava do jeito que eu queria e desenhar figuras – porém mais frequentemente eu lia e, de uma idade bem tenra, escrevia minhas próprias histórias. Sempre houve muitos livros em nossa casa, porque minha mãe era apaixonada por leitura.

Eu tive muita dificuldade em escolher meus livros favoritos; a lista muda diariamente. Foi um exercício revelador. Olhando minha lista, me surpreendeu que todas os livros escolhidos por mim são sobre o amor em suas mais variadas formas: romântico, fraternal, perverso, não-correspondido, frustrado, auto-sacrificante e destrutivo. A outra coisa que me surpreendeu é que em três dos trechos escolhidos por mim aparecem famílias grandes ou membros individuais de famílias grandes.

Eu sempre fui atraída pela ideia de família grande, mesmo quando criança; talvez eu quisesse mais irmãos para comandar, ou queria escapar em um canto para sonhar acordada sem ser procurada tão rapidamente. Eu devorei as biografias das famílias Kennedy e Mitford por anos, e um dos meus melhores amigos é o mais velho de uma família de doze irmãos, então eu estou bem ciente de que a vida em um grande clã tem suas desvantagens. Entretanto, os livros sobre Harry Potter foram a minha chance de criar minha própria e ideal grande família, e meu heroi nunca está mais feliz do que quando passa os feriados com os sete Weasleys.

O primeiro dos meus livros escolhidos é a famosa história das seis crianças da família Bastable que partiram para recuperar as “fortunas perdidas” de sua casa: A História dos Caçadores de Tesouro, por E. Nesbit. Eu acho que me identifico com E. Nesbit mais do que com qualquer outra escritora. Ela disse que, por sorte, se lembrava exatamente como pensava e sentia quando era criança, e eu acho que você poderia fazer um bom caso, com esse livro como Exibição A, para proibição de toda a literatura infantil por alguém que não consegue se lembrar exatamente como era ser criança. Nesbit produziu histórias infantis curtas e convencionais por 20 anos para sustentar a família antes de escrever Os Caçadores de Tesouro, aos 40 anos.

É a voz de Oswald, o narrador, que faz o romance ser tão impressionante. Eu adoro as corajosas tentativas dele de ser humilde enquanto está cheio de orgulho de sua própria ingenuidade e integridade, sua mistura de ostentação e inocência, sua seriedade e seus conselhos sobre escrever um livro. Segundo Oswald, um bom jeito de terminar um capítulo é dizendo: “Mas isso é outra história”. Ele diz que roubou o truque de um escritor chamado Kipling.

Escapar da pobreza é, também, o pano de fundo para o meu segundo livro escolhido, apesar de esse não ser um favorito da infância, mas sim um romance que li pela primeira vez ano passado: I Capture the Castle, por Dodie Smith. Em estava em turnê nos Estados Unidos no outono passado, e, depois de uma enorme sessão de autógrafos, uma vendedora simpática me entregou um exemplar e disse que sabia que eu adoraria. Ela estava certa. Este imediatamente tornou-se um dos meus livros preferidos de todos os tempos, e eu fiquei bem aborrecida que ninguém houvesse me contado sobre ele antes.

Mais uma vez, é a voz do narrador, neste caso, Cassandra Mortmain de 17 anos, que torna um enredo antigo em uma obra-prima. Cassandra, sua irmã mais velha Rose e seu irmão mais novo Thomas estão vivendo numa pobreza pior do que a dos Bastables, em um castelo com péssimas condições. O pai deles, autor de um romance experimental com sucesso mediano, não escreveu nada desde essa obra, e senta-se sozinho em uma torre lendo, na maior parte do tempo, livros de investigação da biblioteca local.

A presença sombria do depressivo e apático Mortmain paira sobre o castelo, mas são as mulheres que dominam o livro. A esperta e perceptiva Cassandra, que conta a história através de seu diário, a mal-humorada e insatisfeita Rose, uma beleza sem a inteligência de Cassandra, cuja única saída, como ela vê, é o casamento com um homem rico; e a imortal Topaz, a jovem e bonita madrasta das meninas, uma hippie bem antes de seu tempo, que aprecia dançar nua no cume dos morros, cozinhar e tocar alaúde.

A pergunta que você ouve mais frequentemente quando se é um escritor é: “De onde você tira suas ideias?” Eu acho muito frustrante porque, falando pessoalmente, eu não faço a mínima ideia de onde que vêm minhas ideias, ou como funciona a minha imaginação. Eu apenas sou grata por funcionar, porque me diverte mais do que aos outros.

Minha escritora preferida de todos os tempos é Jane Austen. Eu sou uma companhia horrível para assistir a um filme televisivo ou adaptação para o cinema de um dos livros de Austen porque eu me contraio de irritação toda vez que vejo um ator exagerado interpretando o Sr. Wodhouse – ou o Sr. Darcy dando um mergulho gratuito porque aparentemente ele não é sexy o suficiente sem uma camiseta molhada. Minha atitude para com Jane Austen é resumida corretamente por aquela frase maravilhosa de Cold Comfort Farm: “Uma das desvantagens da educação quase universal era que todos os tipos de pessoa adquiriram um tipo de familiaridade com os livros favoritos de alguém. Isso dá uma sensação curiosa, como ver um estranho bêbado enrolado no roupão de alguém”.

Eu reli os livros de Austen em rotação – eu acabei de começar Mansfield Park novamente. Eu poderia ter escolhido uma série de trechos de seus romances, mas finalmente me fixei em Emma, que é o mistério mais habilmente elaborado que já li e tem o mérito de trazer uma heroína que me incomoda por ser, em alguns aspectos, tão parecida comigo. Eu devo ter lido, no mínimo, umas 20 vezes, sempre me perguntando como eu pude não ter percebido o fato evidentemente óbvio que Frank Churchill e Jane Fairfax estavam noivos o tempo todo. Mas eu não percebi, e ainda tenho que conhecer uma pessoa que tenha conseguido perceber, e eu nunca elaborei um final surpreendente em um livro de Harry Potter sem estar ciente de que não posso, e nunca poderei, fazê-lo tão bem como Austen fez em Emma.

Fonte: http://www.findarticles.com/p/articles/mi_qn4156/is_20000521/ai_n13949408

Traduzido por: Fabianne de Freitas em 23/01/2009.
Revisado por: Renata Grando em 26/01/2009.
Postado por: Vítor Werle em 26/01/2009.
Entrevista original no Accio Quote aqui.