Jones, Malcolm. “A mulher que inventou Harry”. Newsweek, 17 de julho de 2000.

J.K. Rowling fala de seu sucesso, sua filha, seus leitores, o filme que está por vir e, claro, o jovem bruxo, Harry Potter.

Meses antes de seu lançamento oficial em 8 de Julho, o quarto Harry Potter de J.K. Rowling já se tornou o maior fenômeno já publicado. Nunca houve uma primeira edição tão grande (3.8 milhões só neste paí­s). Nem mesmo um livro que tenha vendido tanto em pré-vendas (na meia-noite de 1 de Julho, haviam 282,650 pedidos na Amazon.com, onde tem sido o Nº 1 dos mais vendidos em 16 das últimas 21 semanas).

Igualmente incrí­vel, os editores de Rowling tem até agora conseguido manter o conteúdo do livro mais desejado do ano quase totalmente em segredo. O tí­tulo, “Harry Potter e o Cálice de Fogo”, escapou uma semana atrás. Uma garotinha sortuda de 8 anos conseguiu comprar uma cópia perdida na livraria local. E Rowling, que tem apoiado incondicionalmente o véu de segredo ao redor do livro porque quer que chegue como uma surpresa para seu leitores, deixou escapar ao London Times o que vários pequenos fãs tem discutido durante meses: finalmente um personagem importante vai morrer no novo livro. Pouco mais se sabe sobre o novo livro, que NEWSWEEK planeja revelar na próxima semana. Tudo sobre esses livros bem escritos e planejados é assombroso, começando pelo fato que eles já venderam 30 milhões de cópias pelo mundo inteiro sem a ajuda de uma única figura atuante. Porque isso é a vida e não um conto de fadas, essas figuras atuantes estão chegando, mas não por enquanto. Os direitos autorais de coisas como sacos de dormir, lancheiras e doces pertencem à Warner Brothers. As filmagens do primeiro livro, “Harry Potter e a Pedra Filosofal”, começam no final do outono. Mas talvez o aspecto mais incrí­vel dessa história seja a mulher por trás de tudo isso. Sete anos atrás Joanne Kathleen Rowling era uma mãe solteira desempregada que passava suas tardes aquecida em cafeterias de Edimburgo, escrevendo enquanto seu bebê dormia. Hoje, com o crédito de três dos livros mais vendidos do mundo, a escritora de 34 anos está na vigésima quinta posição da lista da revista Forbes das 100 celebridades mais poderosas. Mês passado ela recebeu a Order of the British Empire (Ordem do Império Britânico) durante a festa de aniversário da rainha. Mais cedo em Junho ela viajou para Dartmouth College em New Hampshire para receber seu primeiro grau honorário. Lá o repórter da NEWSWEEK Malcolm Jones alcançou a tí­mida escritora para uma entrevista exclusiva.

A mania chegou ao topo?
Eu não sei. Pensei que havia chegado ao topo com o “Prisioneiro de Azkaban”, mas não. Não podemos continuar assim para sempre. Uma hora as coisas tem de se acalmar. O filme não vai ajudar em termos disso a diminuir. O filme vai entrar em produção em Outubro, e o roteiro está lido? Sim. Quase tudo. Nós ainda estamos nos ocupando disso.

Quanto controle você tem sobre o filme?
Controle, eu não diria – estou muito ciente de que sou convidada a dar minha opinião. Mas eu não tenho nenhum direito de chegar lá e dizer isso ou aquilo. Mas eu o vendi para pessoas em quem confio, e até agora minha confiança não foi desmerecida. Nós estamos buscando um elenco inteiramente britânico. A princí­pio isso pareceu impossí­vel. Mais de um diretor achou que isso nunca seria feito. Eu diria que as coisas estão indo muito bem no momento. As pessoas tem que entender que ninguém poderia ser mais protetora sobre esses personagens do que eu. Se der errado, eu serei a mais magoada.

Então, o elenco foi escolhido? Tem pessoas sendo convidadas agora, mas o elenco foi inteiramente escolhido?
Não. O próprio Harry tem se provado bem evasivo. É como Scarlett O ‘Hara – a criança equivalente a procura por Vivien Leigh’. Eu só disse “nós saberemos quando o encontrarmos”. Eu agora estou andando por Londres e Edimburgo, e eu olho para as crianças ao passar por elas, imaginando; Podia ser, nunca se sabe. Eu posso simplesmente chegar nessa criança e perguntar “Você sabe atuar? Vem comigo. Taxi!”

Pais e até muitas crianças estão encantados que até agora não tenham produtos lançados – nenhuma boneca, nenhum brinquedos, nenhuma lancheira. Mas isso está prestes a mudar.
Eu sei, eu sei (cansadamente). Warner Brothers tem realmente me dado – eu fico chocada com a grande quantidade de opiniões que me deram e os números de encontros para os quais fui convidada. E nós sabemos o porquê disso, porque há tantas crianças à­ fora que querem ver isso do meu jeito mais que do jeito deles. Então o que eu posso dizer a todos que estão preocupados com os produtos “Por favor confiem em mim, eu estou lutando por você”.

Você tem algum tipo de público alvo quando escreve esses livros?
Eu mesma. Eu sinceramente nunca sentei e pensei, O que será que as crianças vão gostar? Eu realmente estava tão empolgada com a idéia quando ela veio a mim que eu pensei que seria divertido de escrever. De fato, eu não gosto muito de fantasia. Não é bem que eu não goste, na verdade eu não li muito isso. Eu li “Senhor dos Anéis” no entanto. Li quando tinha uns 14 anos. Fui ler “O Hobbit” depois dos vinte. Nessa época eu já tinha começado “Harry Potter”, e alguém me deu esse livro, e eu pensei: Sim, Eu realmente devo ler isso, porque as pessoas sempre diziam, “Você já leu “O Hobbit, obviamente?” e eu dizia, “Hum, não”. Então eu pensei “Bem, vou ler”, li, e foi maravilhoso. (Sorriso encabulado).
Não me ocorreu por um tempo que estava escrevendo fantasia quando comecei “Harry Potter”, porque eu sou um pouco devagar para entender essas coisas. Eu estava tão envolvida. E eu estava mais da metade do caminho, e de repente pensei “Tem unicórnios nessa história. Estou escrevendo fantasia!”

Por que os ingleses são tão bons em escrever fantasia?
(Risadas) Os britânicos tem a mais incrí­vel mistura de tradições folclóricas porque nós fomos invadidos por tantos povos. Muita da superstição americana foi importada inteiramente da Inglaterra. Salem é mencionada no quarto livro.

Alguma vez você pegou idéias dos leitores?
Não, pequenos leitores são tão generosos, eles me escrevem dizendo palavras engraçadas que eles próprios inventaram e dizem “Você pode usá-la?” e eu tenho que escrever de volta dizendo “Não, eu não posso usá-la porque ela é sua, você deve usá-la”.

Você responde mesmo as cartas dos seus fãs?
(Relutantemente) Sim. Eu tenho ajuda agora. Mas as cartas ficam… Eu não sei se deveria dizer isso aqui no NEWSWEEK. Eu tenho um grupo de critérios para as cartas que quero ver pessoalmente, então elas são filtradas e ganham respostas escritas à mão. Eu recebo cartas de crianças endereçadas ao professor Dumbledore, diretor da escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, o cenário dos livros, e não é brincadeira, implorando para serem aceitas em Hogwarts, e algumas delas são bem tristes. Porque elas querem tanto que isso seja verdade que convencem a si mesmas que é verdade. Então essas são algumas das que passam.

Sua filha tem 6 anos. Você já começou a ler os livros para ela?
Eu disse a ela “Não até que você tenha 7 anos”, porque eu acho que uma criança brilhante de 6 anos consegue lidar com a linguagem, mas em termos de temas, as coisas ficam um pouco mais assustadoras e sombrias, e algumas crianças de 6 anos podem ficar assustadas com isso. Então para a minha própria filha eu disse, “Nós vamos esperar até que você complete 7 anos”. Mas depois ela foi para a escola, e passou a ser perseguida. As crianças mais velhas estavam sempre conversando com ela sobre Quadribol e outras coisas, e ela não fazia idéia de nada, então pensei que não seria justo excluí­-la de tudo isso, então nós começamos a ler.

Você parece ter mantido uma vida bem discreta. Você não comprou os cinco carros ou o helicóptero.
Bem, eu não sei dirigir, então os cinco carros seriam um problema. (Risadas)
Nem o helicóptero. Não quero que ninguém pense que eu sou uma puritana. Eu adoro gastar dinheiro. Mas a principal diferença entre onde eu estava cinco anos atrás e hoje é a falta de problemas. Eu sinceramente acredito que as únicas pessoas que vão entender isso são as pessoas que estão realmente sem dinheiro. Se você nunca teve esses problemas, você vai assumir que a grande coisa sobre ter dinheiro é que agora posso ter cavalos de corrida ou me divertir em boates. Mas não, o que eu agradeço a cada dia é que eu não preciso me preocupar com dinheiro.

O seu sucesso impôs restrições na sua vida? Você pode sair andando pelas ruas, fazer compras?
Ah, sim, com certeza. Lógico que existe a possibilidade de alguém se aproximar de mim. Não acho que eu seja muito reconhecí­vel, o que eu digo com muita alegria. Além disso, ninguém nunca foi menos que completamente encantador quando chegou até mim. E eles tendem a vir, lógico, se eles leram o livro ou seus filhos leram o livro, para me dizer alguma coisa muito agradável. Houve um tempo em que eu tinha muitos jornalistas na porta de casa, e aquilo era muito chato. Aquilo nunca havia acontecido comigo, e não era bom, quem quer que fosse. Mas eu não quero me lamentar, porque essa era a minha ambição na vida, e eu a alcancei de forma ainda maior.

O quanto você está publicamente preocupada com a idéia de Harry crescer no decorrer dos livros?
Eu quero que ele cresça. Quero que todos eles cresçam, mas não de um jeito que não seja fiel aos livros. Eu achei que seria inapropriado nesses livros, que Hermione tivesse uma gravidez na adolescência ou que alguém começasse a usar drogas, porque isso é infiel ao tom dos livros. De maneira nenhuma eu acho que esses temas não podem ser brilhantemente explorados em literatura infantil. Mas nos livros de Harry Potter não há lugar para esses temas particulares. No quarto livro, aparece a maior evidencia de que eles estão crescendo, lá eles começam a se interessar por garotos e garotas. Embora tenha aparecido uma pista disso no terceiro livro, agora está escancarado.

Você sentiu alguma pressão, de bibliotecários, crí­ticos ou pais, para interromper esses livros?
Não, de forma alguma. Eu tenho uma visão forte sobre tais coisas. Não me sinto nem um pouco pressionada. É um campo interessante, a literatura infantil, e somente de dentro você consegue enxergar a força dela. Livros infantis não são livros-texto. Seu propósito inicial não deveria ser “Pegue esse livro e ele vai te ensinar isso”. Não é assim que literatura deve ser. Você provavelmente aprende algo de cada livro que você lê, mas isso deve ser simples como rir. Não deve ser um tapa na cara moral sempre. Eu acho que os livros de Harry Potter são livros éticos, mas eu me arrepio em pensar que qualquer criança pegando um livro pode ler três capí­tulos e pensar: Ah, sim, essa é a lição que nós iremos aprender dessa vez.

Sempre que escritores ficam imensamente famosos, eles criam a ira de alguns grupos reacionários. No seu caso isso parece ser pessoas lhe acusando de encorajar a adoração ao demônio.
Nós sempre assistimos isso acontecer com tudo que se torna muito popular. Com as pessoas que querem me acusar de adoração ao demônio, eu estou cheia de discutir sobre isso cara a cara. Mas você sabe que não vai mudar o que elas pensam. A única coisa que eu tenho discutido fortemente é que a idéia de censura me ofende profundamente. Eles têm o direito absoluto, claro, de decidir o que seus filhos podem ler. Eu acho que eles estão errados, mas eles têm o direito. Mas impedir os filhos de outras pessoas de ler alguma coisa, a esse ponto, eu ficaria muito feliz em encará-los e discutir isso. Acho que isso é completamente injustificável.

Estar às voltas com o dia-a-dia da sua filha alterou seu modo de pensar sobre as crianças? Você estava escrevendo sobre elas antes que sua filha nascesse, mas-?
Todas as crianças nos livros e todos os sentimentos nos livros são baseados nas minhas memórias. Não são baseados em nada que minha filha tenha me dado. Isso vem de dentro de mim, minhas memórias de criança. E também, como eu disse, tanto disso estava fixo em mim antes dela nascer. Acho que isso é provavelmente uma coisa boa. Quero dizer, nos lembramos de Christopher Robin*, que foi perturbado até morrer, aos 75 anos, por pessoas tirando o Mickey de dentro dele. Essa não foi uma coisa esperta de se fazer, colocar o nome de seu filho dentro do livro, e seus brinquedos. Eu não quero que Jessica seja sempre a irmã de Harry Potter. É meu maior medo, na verdade.

[Nota da tradução: Chritopher Robin era o filho do autor do “Ursinho Pooh” e seu nome e seus brinquedos deram origem aos personagens do livro. Já adulto, ele chegou a dizer que tinha muita mágoa do pai por ter usado seu nome e sua imaginação infantil nos livros.]

Esse é o livro chave, em termos de trama?
Sim, é o principal em termos de trama.

Esse será o mais longo?
Não, eu acho que o sétimo livro será. O sétimo vai ser como a Enciclopédia Britânica, porque eu vou querer me despedir. Eu sempre soube que o quarto livro seria longo, só não achei que fosse tanto. Mas ele tinha que ser. Eu não me arrependo. É o número de palavras necessárias para contar a história que eu queria. Eu gosto dele. Estou muito feliz com ele. É definitivamente o livro que me deu mais trabalho. Mas então “A Câmara Secreta” me deu uma quantidade grande de trabalho. Curiosamente, parece que os dois mais difí­ceis de escrever, são os dois que eu gosto mais.

O ato de escrever mudou sua personalidade?
Sim, me fez mais feliz. Terminá-los me fez mais feliz. Antes de escrever os livros do Potter, eu nunca tinha terminado um romance. Eu quase terminei dois. Também me faz feliz ver que não me enganei em achar que poderia fazer isso. Porque eu não sou muito boa em qualquer outra coisa, pra ser sincera. Eu sou uma professora razoável, e eu adoro ensinar, mas eu tive alguns trabalhos de escritório, e qualquer pessoa que trabalhou comigo pode lhe dizer que eu sou a pessoa mais desorganizada que já existiu. Eu não era boa. Não me orgulho disso. Não acho que isso seja charmoso e excêntrico. Eu realmente deveria ser melhor nisso, mas eu realmente sou muito atrapalhada quando se trata de me organizar.

Os dois livros anteriores a “Harry Potter”?
Eram ambos para adultos. Eu escrevi quase tudo, menos poesia. Bem, eu já escrevi poesia, mas eu sempre soube que era um lixo. (Risadas)
Já tentei drama, algumas histórias curtas. Ironicamente, eu nunca pensei em escrever para crianças. Eu sempre pensei que poderia escrever para adultos.

Mas então, aí está você, em 1990, naquele trem preso entre Manchester e Londres, olhando para o campo cheio de vacas, e a imagem de Harry estalou na sua mente. Essa é realmente uma história mágica.
Era. Realmente era. E eu tive essa reação fí­sica, essa grande dose de adrenalina, que é sempre um sinal de que você teve uma grande idéia, quando você tem uma resposta fí­sica, essa precipitação gigantesca, e eu nunca tinha sentido aquilo antes. Já tive idéia das quais gostei, mas nunca tão poderosas. Harry veio primeiro, com essa pressa enorme. Ele não sabia que era um bruxo, como poderia não saber? E, curiosamente, ele tinha a marca na testa, mas eu não sabia por que naquele momento. Era como uma pesquisa. Não parecia que eu estava inventando aquilo inteiramente.

Um tema que é muito forte nos livros é a idéia da impotência das crianças “das crianças normais”, isso.
Sim, definitivamente. E eu acho que isso é provavelmente a atração chefe para pequenos leitores. Acho que é por isso que sempre, sempre, sempre vai haver livros sobre magia, descoberta de poderes secretos, coisas que você não pode fazer. Isso existe em adultos também. Tem um pequeno pedaço de você que deseja que você possa alterar as coisas externas para serem do jeito que você quer que sejam. Uma das realidades sobre crescer é perceber o quão limitado o seu poder é quando se é um adulto, também. Quando criança você tem a idéia de que você só tem de crescer e quando você cresce percebe que não é tão fácil mudar coisas daqui também. O que não significa que não vale a pena tentar.

Você já pensou na vida depois de Harry Potter?
Eu definitivamente tenho pensado nisso, mas não tomei decisões. Eu certamente continuarei escrevendo. Eu literalmente não me sinto direito se fico sem escrever por um tempo. Uma semana é o máximo que consigo sem começar a ficar nervosa. É como uma ordem. É realmente compulsivo. Sim, eu tenho idéias, mas elas podem ser todas um lixo.

Traduzido por: Felipe Mazzaro em 09/10/2006
Revisado por: Patricia M. D. de Abreu em 19/04/2007 e Antônio Carlos de M. Neto em 22/03/08
Postado por Fernando Nery Filho em 29/04/2007
Entrevista original no Accio Quote aqui.