Rowling, J.K.. “Introdução para One City [por Alexander McCall Smith, Ian Rankin e Irvine Welsh], Edimburgo: Polygon, 2005.

INTRODUÇÃO
por J.K. Rowling

Quando eu cheguei a Edimburgo em dezembro de 1993, a cidade estava coberta de neve, quase assustadoramente bela e austeramente não familiar. Eu não pretendia ficar aqui; tinha vindo passar o Natal na casa da minha irmã e então supostamente seguiria sul, onde a maioria dos meus amigos estava na época.

Janeiro veio e a neve desapareceu, mas eu não. O Princes Street Gardens ficava a uma pequena distância a pé e a entrada do Museu da Escócia era grátis; meu bebê estava se tornando uma pequena criança e adorava cambalear pelos dois. Eu tropeçava junto em sua animação, me perguntando o que aconteceria conosco, quase tão chocada por me achar nessa estranha nova cidade do que eu estava por ser uma mãe solteira, sem dinheiro e sem emprego.

Não era culpa de Edimburgo que eu estava nessa bagunça, mas enquanto se formava o pano de fundo para a parte dos ‘trapos’ do que poderia ser chamada minha história de Cinderela, eu aprendi mais sobre ser pobre e isolada aqui do que em qualquer outra cidade. Foi em Edimburgo, ao invés de Paris, Londres, Manchester ou Oporto, todas as quais eu habitei durante meus nômades vinte e tantos anos, que eu fiquei mais intensamente ciente das fronteiras, invisíveis e inflexíveis como vidro à prova de balas, que separam aqueles da rica e sadia vulgaridade de nossa sociedade daqueles que, por qualquer razão, vivem em seus limites.

Na maior parte dos meus dias pré-Potter em Edimburgo eu ficava em uma pequena quadra de apartamentos que alojavam, na época, outras três mães solteiras. Eu estava muito contente por me mudar, porque era uma grande melhora considerando minha gloriosa quitinete anterior, e em meus três anos morando lá minha filha aprendeu a andar e a falar, e eu realizei a ambição da minha vida: um contrato de publicação. Mas também foi ali que, em noites maçantes, um grupo de garotos locais se divertia jogando pedras na janela do quarto da minha filha de dois anos; foi ali que, no corredor do meu apartamento, eu lutei com um homem bêbado enquanto ele tentava abrir a porta da frente à força; foi ali que arrombaram meu apartamento em uma noite em que estávamos dormindo. E eu sabia que coisas muito piores haviam acontecido com outras pessoas, e pessoas que não moravam tão longe; minha vizinha de cima costumava parar na escada para conversar, usando óculos escuros para esconder seus olhos roxos.

Violência, crime e vício faziam parte do dia-a-dia da vida naquela região de Edimburgo. No entanto, a somente dez minutos de ônibus dali, havia um mundo diferente, um mundo de cashmere e chás de creme e fachadas imponentes de instituições que fazem dessa cidade o quarto maior centro financial da Europa. Naqueles dias, eu sentia como se houvesse um abismo me separando daqueles que passavam alvoroçados por mim, carregando pastas e bolsas Jenner – e, na verdade, havia.

A Fundação OneCity identificou essa separação como uma “cultura de satisfação”, o que separa [os mais ricos] das desvantagens experimentadas por grupos e áreas excluídos. Esses grupos incluem os pobres, os incapacitados, os marginalizados por causa da raça ou, nas palavras da OneCity, ‘pessoas que se sentem isoladas das outras e dos benefícios da cidade’, uma descrição exata de como eu me sentia na época.

Quer tenhamos conhecimento da exclusão social ou não, ela afeta a todos nós, porque é nas margens da sociedade que a miséria, o desespero, os problemas de saúde físicos e mentais, e o abuso de si mesmo e de outros florescem. Toda cidade, todo cidadão, seria direta e concretamente beneficiado por ajudar a destruir essas barreiras que previnem crianças de atingirem seu potencial máximo, que mantêm possíveis trabalhadores de ganharem salários e isolam tantos em suas próprias casas ou mentes.

A Fundação OneCity possibilitou que as vozes, tanto de indivíduos quanto de organizações, fossem ouvidas, talvez pela primeira vez em uma cidade e uma sociedade que parecem ter se esquecidos deles. Ela está analisando essas informações e fazendo recomendações para uma Edimburgo mais abrangente, para que as mudanças possam ser feitas de modo a tornar essa cidade mais completamente nossa – toda nossa.

Nos últimos anos, desde a atordoante e inesperada mudança de sorte que me atingiu com a publicação de meu primeiro livro, Edimburgo tem sido frequentemente descrita como minha cidade natal ‘adotada’. É verdade que eu ainda conservo traços do meu sotaque de West Country, e eu pretendo manter meu suéter mesmo quando homens pálidos e melancólicos estão delineando a si mesmos nos úmidos raios solares de Princes Street Gardens; esses são pontos que asseguram o fato de que eu não nasci na antiga cidade dos Simpsons. Mas acontece que eu nunca morei em um lugar por tanto tempo, seja como adulta ou criança, quanto eu morei aqui. Edimburgo é meu lar agora, é uma parte de mim, e eu amei a cidade muito antes de Harry Potter chegar às prateleiras de livrarias. Estou orgulhosa de morar aqui, e orgulhosa que a cidade em que moro está comprometida em se tornar um lugar mais inclusivo. OneCity busca unificar: não posso pensar em um objetivo melhor para Edimburgo, Escócia ou o mundo.

NR: Este livro ainda está sendo impresso e está disponível na Amazon.

Traduzido por: Isadora T. Moraes em 11/02/2009.
Revisado por: Thais Teixeira Tardivo em 01/04/2009.
Postado por: Ohanna S. Bolfe em 02/04/2009.
Matéria original no Accio Quote aqui.