Nuttamy, Ellis. “A morte de Harry Potter: a indústria de livros se prepara para um último viva ao campeão de publicação de todos os tempos”. Newhouse News Service, 23 de junho de 2007.

Essa é a soma de todos os medos dos fãs de Harry Potter: 3.677 dias, 4.195 páginas, 8,9kg.*

Essas são duras lembranças de que todas as coisas boas – incluindo livros – precisam finalmente chegar a um fim.

No caso do arrasador que Harry Potter literalmente é, isso acaba dia 21 de julho, quando Harry Potter e as Relíquias da Morte, a sétimo e última parte da estupidamente bem sucedida série de livros de J.K. Rowling sobre o menino bruxo amadurecendo até a vida adulta, é lançada ao público. (Rowling já disse antes e de novo que a série Harry Potter acaba com o livro sete).

A data vai marcar uma década (3.677 dias para ser exato) desde a publicação britânica do primeiro livro de Rowling da série, Harry Potter e a Pedra Filosofal. A finalização da série, que irá totalizar 4.195 páginas e chega quase a 10kg, apresenta às indústrias de edição e vendas de livros, isso para não mencionar o público leitor, uma situação única.

Nunca antes havia uma série de livros sido tão popular ou melhor sucedida financeiramente. Por todo o mundo, há 325 milhões de cópias dos seis livros anteriores de Harry Potter. Os primeiros quatro filmes de Harry Potter (o quinto, Harry Potter e a Ordem da Fênix, deverá sair dia 13 de julho) [editado: a data foi modificada para 11 de julho] arrecadaram mais de $3,5 bilhões mundialmente, e Rowling é a primeira autora bilionária que se tem notícia.

Então o que acontecerá quando a festa acabar?

Para a Bloomsbury, a pequena casa britânica de publicação que lançou Harry Potter, e a Scholastic, a única editora dos Estados Unidos, o último livro significa que a maior fonte de dinheiro na história da publicação vai parar de produzir seu material fresco.

Para as grandes livrarias (e cadeias de lojas) que fizeram a festa com os livros Harry Potter, pode significar um fim ao crescimento de dois dígitos na venda de livros infantis todo ano.

E para leitores – bom, vai ser como perder um grupo inteiro de amados amigos para sempre.

Mesmo assim, para a maioria dos fãs de Harry, a contagem regressiva para o lançamento do livro sete tem sido um período de grande animação, não medo.

“Eu conheço tanto adultos que esperam por esse livro quanto crianças”, disse Kathleen Horning, presidente da Association for Library Service to Children (Associação para Serviços Bibliotecários para Crianças). “Então muitas pessoas ao redor do mundo tem a mesma experiência de leitura em comum… Há tantos tipos diferentes de leitores que os livros atraem – uma coisa que é difícil para qualquer livro infantil fazer – aqueles que estão interessados em aventura, mistério, fantasia, escola, esportes, humor”.

Os únicos fatos conhecidos do livro sete são esses:

— Harry e seus amigos, Rony Weasley e Hermione Granger, deveriam entrar em seu sétimo ano na Escola de Magia e Bruxaria Hogwarts, mas não é certo se a escola irá reabrir ou se os três vão retornar mesmo que reabra. Eles agora têm permissão para utilizar magia fora da escola e podem obter licenças para aparatar.

* Dois personagens vão morrer. (edit.: Rowling na verdade disse “Dois personagens que eu esperava que sobrevivessem morreram e um personagem se livrou”. Fonte)

* Scholastic irá lançar 12 milhões de cópias de primeira impressão de Relíquias da Morte.

* Houve um aumento de 547% nas encomendas do livro sete comparado com o livro seis, no Amazon.com

Em 26 de junho de 1997, quando Harry Potter e a Pedra Filosofal foi lançado no Reino Unido, ninguém poderia saber – muito menos Rowling, então lutando para pagar o aluguel – que o herói fictício de 10 anos de idade que vivia embaixo da escada de seus parentes todos-muito-humanos iria dar início a uma era sem precedentes na publicação de livros.

As origens da série Harry Potter viraram lenda. Harry foi desenhado na imaginação de Rowling em uma viagem de trem de Manchester para Londres em 1990. Ela escreveu muito do livro, à mão, no café Nicolson, agora um restaurante chinês, em Edimburgo, Escócia, para onde ela mudou com sua filha bebê pouco tempo após o divórcio. Muito pobre para fazer uma cópia do manuscrito, ela digitou dois e os mandou. Muitas rejeições depois, a Bloomsbury comprou o livro pelo equivalente a $4.000. Arthur Levine, um editor com sua própria marca na Scholastic, leu o manuscrito em uma viagem de avião de Nova Iorque para Bologna, Itália, e mais tarde desbancou sete outras companhias pelos direitos nos Estados Unidos. A impressão inicial nos Estados Unidos de Harry Potter e a Pedra Filosofal em 1998 foi de meras 50.000 cópias. Pela época do lançamento do sexto livro em julho de 2005, a Scholastic havia imprimido 10,8 milhões. Hoje, apenas a Bíblia e O Livro Vermelho têm mais cópias impressas do que os livros Harry Potter.

“Nós estamos muito, muito animados com o livro sete”, disse Kyl Good, em nome da Scholastic. “Esse vai ser o maior evento de publicação que já existiu, e nós podemos trazer isso a milhões de fãs”.

Praticamente nenhum canto do mundo permaneceu intocado pela “Pottermania”. A série foi traduzida para 64 línguas, incluindo uma morta (latim), e o nome Harry Potter é familiar a centenas de milhões de pessoas, seja ele lituano (Haris Poteris), chinês (Ha li po te) ou árabe (Hari Butar).

Até paródias da séria Harry Potter foram traduzidas para bielorrusso e húngaro.

Nas horas após o pronunciamento em 1º de fevereiro da data de publicação do livro sete, Harry Potter e as Relíquias da Morte era o número um em ambos os sites, Amazon e Barnes & Noble. Até agora, pelo menos meio milhão de cópias já foram encomendadas no amazon.com (onde o livro está sendo vendido com 46% de redução, por US $18,89, em vez de US $34,95), incluindo um pela bibliotecária do campo de prisão militar na Bacia Guantanamo, Cuba.

Os maiores ganhadores na surpresa financeira que é Harry Potter, além de Rowling, tem sido a Bloomsbury e a Scholastic. Quando o título do sétimo livro foi anunciado no final de dezembro de 2006, as ações da Scholastic subiram mais de 2% em um único dia. E no começo desse ano, quando Bloomsbury revelou a data de publicação – na Bolsa de Londres – suas próprias ações subiram 2,2%.

Mas conforme Harry vai, também vai a indústria de publicação. No final no calendário fiscal de 2005 a Scholastic, que não publicou um título Harry Potter nesse ano, sofreu uma queda de 15% na divisão de vendas de livros infantis.

Rowling e seus próprios editores, assim como a indústria cinematográfica e os fabricantes de literalmente milhares de itens de merchandise, não são os únicos a se beneficiarem da proeza financeira de Harry Potter.

A série também gerou livros sobre a série, incluindo “What Will Happen in Harry Potter 7” (O Que Acontecerá em Harry Potter 7), que teve como co-autor Emerson Spartz, 20, fundador de um dos mais famosos websites Harry Potter, http://www.mugglenet.com

“Acabei de descobrir que Wal-Mart encomendou 30.000 cópias do livro”, Spartz disse no começo desse mês. “E está na lista dos bestsellers de livros infantis do New York Times”, adicionou o aluno do segundo ano de business da University of Notre Dame.

Depois de uma impressão inicial de apenas 9.000 cópias, há agora 270.000 cópias de What Will Happen in Harry Potter 7 impressas, de acordo com Spartz.

Como muitos outros adolescentes e jovens adultos, Spartz cresceu com os personagens do livro, que é um dos efeitos especiais da série.

“Harry é o primeiro personagem na literatura infantil que envelhece”, disse Horning, da American Library Association. “Nancy Drew, coitada, ainda tem 16 anos”.

Como um fenômeno cultural, ela disse, “as crianças cresceram com Harry Potter da mesma forma que crianças dos anos 60 cresceram com os Beatles”.

“Eu acho que a razão pela qual leio os livros”, disse Spartz, “não é por causa da mágica ou dos feitiços. É uma ótima história com personagens maravilhosos… Eu passei por muitas coisas que Harry passou, os dramas adolescentes de amizade, garotas e séries”.

O que explica porque, para a Scholastic, é bom ver as coisas a longo prazo:

“Todos os anos há uma turma inteira de crianças de oito anos de idade prontos para entrar em Hogwarts”.

Traduzida por: Renata Grando em 17/03/2008.
Revisada por: Adriana Couto Pereira em 18/03/2008.
Postado por: Vítor Werle em 26/09/2008.
Entrevista original no Accio Quote aqui.