“Mãe de todos os trouxas”. The Irish Times, 13 de julho de 2000.

Bruxos, trouxas e capas de invisibilidade estimularam crianças que não liam a adentrar o mundo dos livros e renderam à criadora de Harry Potter mais do que às Spice Girls. Eileen Battersby embarca no Expresso de Hogwarts para conhecer a autora J.K. Rowling

Uma fila em ordem aguarda na garoa do lado de fora de uma grande livraria em Newcastle, no nordeste da Inglaterra. Meninos e meninas dos seis aos dezesseis anos, alguns deles com a cicatriz em forma de raio desenhada em suas testas, estão segurando grossos volumes do mesmo livro. Uns dois deles começaram a ler trechos da obra. Dois fotógrafos estão em alerta. Balões laranjas esvoaçam com a brisa. A atmosfera é de uma vigília alegre.

Todos os olhares estão preparados para a chegada de qualquer coisa fora do comum – até mesmo um par de meias púrpura claro, as minhas, são notados. Um homem alto usando vestes de bruxo posiciona-se perto da janela da frente. Ele parece bem calmo e está lendo um jornal. Nenhuma coruja está à vista. Tampouco um gato laranja. Nenhuma motocicleta voadora. Cidadãos trouxas (não-bruxos) passam pelo local, reparando nos banners: “Harry está de volta”. Enquanto isso, uma locomotiva a vapor verde vem em direção à cidade. De Londres via York, o Expresso de Hogwarts se aproxima. Harry Potter pode não estar nele, mas J.K.Rowling, sua criadora, está – e seus seguidores acenaram e esperaram desde a Estação King’s Cross.

A dois dias da publicação, Harry Potter e o Cálice de Fogo, o quarto livro que conta as aventuras do super herói aspirante a bruxo, vendeu um milhão e meio de cópias. Mesmo os leitores mais jovens não estão intimidados pelo tamanho do novo livro. Muitos deles declararam suas intenções de devotar o feriado para lê-lo. Um pequeno carro azul surge na rua. Uma agitação começa, mas um pragmático solitário silencia a todos: “não é um Ford Anglia, é só um Volvo”.

Tendo discretamente estacionado minha vassoura Nimbus 2001, e com o meu chapéu de bruxo no lugar, é hora de me posicionar perto da entrada da pequena, pouco iluminada gruta mágica na qual Rowling realizará sua tarefa, autografar 500 livros em menos de uma hora. As paredes estão cobertas por cortinas lilás decoradas com estrelas douradas. Um cálice púrpuro está sobre uma mesa envolto por um pesado tecido. O Expresso de Hogwarts está atrasado, retido por seguidores na plataforma. A espera continua. Os funcionários da livraria estão tensos. Jornalistas são vistos com a suspeita normalmente reservada a Você-Sabe-Quem, (Voldemort).

Rowling chega, discreta e profissional, um pouco cansada, encarando o mundo com um sorriso alegre de uma sobrevivente. Não há nuvens de fumaça, nenhum melodrama. Nenhuma varinha à vista. Vestida com uma jaqueta vermelha, calça preta e salto baixo ela parece normal, tão normal quanto qualquer mãe trouxa esperando na fila. Não há nem mesmo um traço de excentricidade. “Ela ganhou mais que as Spice Girls”, murmura um jornalista. “Então existe um Deus, afinal”, diz seu assistente. Rowling tira o tecido da mesa. Ela coloca no chão o lampião com a redoma coberta de estrelas. Ela coloca também o cálice. Rowling sabe que o tempo urge em uma tarde de autógrafos.

Uma insistente repórter de rádio força seu microfone sob o nariz da autora de Potter: “Então, e que tal todo esse dinheiro, hein? J.K. – eu quero dizer, Joanne, você achou que estaria escrevendo tanto para adultos como para crianças? Como é ser tão rica? Rowling lança um olhar de cômico contentamento que anuncia simultaneamente, “Lá vamos nós de novo” e, “cuide da sua vida”. É óbvio que ela identificou corretamente a repórter da rádio como um indivíduo que tem muito em comum com os tios de Harry.

Nunca distinguiriam Rowling como a criadora desses livros. Ela não é estranha ou fora do padrão o suficiente. Ela nem mesmo usa meias da cor púrpura claro. A observação a faz dar uma gargalhada. As vendas em massa e o sucesso dela parecem ter se tornado mais importante do que os livros. Muitos dos artigos que estão sendo escritos estão mais concentrados na soma dos lucros do que nas linhas da trama. Ela é a estória do momento e assim a vida dela tem sido esmiuçada pela imprensa britânica. “Eu não sou uma reclusa”, ela diz. “Eu sou uma mãe solteira e sou escritora. Não há tempo para qualquer outra coisa. Eu não estou reclamando, estou feliz o bastante.”

Não há nada de aconchegante ou condescendente sobre Rowling, e ela também nem parece mágica. Qualquer um que esperava uma bruxa benigna não ficaria tão decepcionado quanto surpreso. Rowling é completamente normal, tão comum como as linhas em seu rosto. Ninguém conseguiria parodiar nada sobre ela. Ela não tem tiques, não tem gestos, nem frases de efeito. Tão subversiva quanto os seus livros, ela também é experiente, adorável, desprovida de pretensão e não comercial, porém ela está encantada com as gravações hilárias feitas por Stephen Fry de Harry Potter e a Pedra Filosofal e Harry Potter e a Câmara Secreta. Sua riqueza não a fez mudar porque ela não esqueceu como é ser pobre, vivendo em um pequeno apartamento com um bebê.

Se existe um único indício para o sucesso dos livros sobre Potter, fora toda a propaganda, é que Rowling presta uma atenção imensa aos detalhes. Os quatro livros até agora, que são escorados pela estrutura de um ano letivo iniciados e terminados pelos miseráveis períodos de Harry com os Dursley, são sustentados pela continuidade e coesão da narrativa criada do início ao fim pela ligação das referências.

Ela nunca esqueceu de um comentário feito por uma de suas heroínas literárias, E. Nesbit, a autora de A estória dos caçadores do tesouro. “Ela disse que, com alguma sorte, ela se lembrava exatamente como se sentia e pensava quando criança”.

Rowling também retém memórias vívidas dessas sensações. “Eu estava sempre escrevendo, inventando, imaginando. Eu escrevi meu primeiro livro aos seis anos. Era sobre um coelho com sarampo. Eu me lembro de pedir a minha mãe publicá-lo. ”

O sotaque dela é neutro, do sul da Inglaterra, porém às vezes parece ser do Oeste do país, sem classe, uma hora bem Inglês e em outra não particularmente – um pouco como seus livros. “Eu sou a mais Inglesa das pessoas”, ela diz. Ela nasceu em Bristol em 1965, “mas nos mudamos para Cheapstow e cresci na Floresta de Dean. Era no interior”. Seu pai, agora aposentado, era engenheiro da Rolls Royce. Nós éramos…” ela silencia e encolhe os ombros vagamente, “de classe média. Mas eu estudei em uma escola muito normal, uma escola estadual. E por mais que (a escola) não fosse muito acadêmica, eu me esforcei muito para me sair bem, e consegui”.

Enquanto a maior parte da traquinagem se mantém sobre ela sugerindo que Harry possa muito bem ser um alter ego, dentre uns dois minutos ouvindo Rowling descrever a si mesma quando mais jovem, se torna claro que ela é na verdade Hermione, a esforçada trouxa determinada a se tornar uma bruxa. “Ela quer agradar, quer realizar. Ela é esforçada, assim como eu fui”.

Assim que nos sentamos em um trem a vapor vinho com o interior inglês e depois escocês passando pela janela a um passo lento, toda a publicidade parece um pouco louca. O que ela pensa? “Não é sobre mim, é sobre Harry Potter. Eu não sou uma pop star, ou uma atriz, as crianças querem Harry Potter, e não a mim”.

Quando criança, ela vivia na imaginação, um hábito que ela não perdeu. “Eu adoro conversar, e ter amigos. Eu era sempre mandona, inventando coisas, uma traquinas”, acrescentando ela era “horrível em esportes. Sempre a última a ser escolhida para os times”. Eu esperava que ela dissesse isso. Somente uma pessoa que odeia esportes poderia criar um jogo tão maluco quanto Quadribol. Mais uma gargalhada: “O Quadribol é a minha vingança aos esportes. Mas toda essa coisa de equipes, de ganhar pontos, é muito importante em uma situação escolar. É mais do que um esporte, é um jogo”.

Talvez sim, mas as descrições nítidas dos vários jogos que acontecem em Hogwarts os fazem parecer mais com um combate. Também é algo no qual Harry é bom. “Ajuda ele a se encaixar”, e Rowling concorda que um dos temas centrais dentre os vários pertinentes a estória é a necessidade de Harry de se encaixar.

Não há nada de suave ou decepcionante sobre a estória. A prosa é altamente descritiva, mas a linguagem é simples, neutra, tão sem sotaque quanto a autora. Mas o tom é Inglês. A saga de Harry é engraçada, mas é também negra, violenta e até ameaçadora. “As crianças apreciam a vida real”. Harry é uma vítima de múltiplos erros da justiça. “Eu acho que existe uma forte sensação de impotência. Essa é uma das grandes coisas sobre ser uma criança, você não tem poder”. Por toda a sua diversão, Hogwarts é um lugar muito rígido e competitivo. “Eu acho que as crianças respondem à idéia das regras porque elas sabem que estas existem para serem quebradas e também tem o fato de que o mundo é um lugar difícil”.

Todos os tipos de afirmações já foram feitas sobre os livros. Ela até foi dubiamente comparada a Jane Austen e Henry James, mas o sucesso de Rrowling está ligado à duradoura atração da estória. “É exatamente isso. Eu planejei a estória inteira anos atrás. Eu já sei como termina. Ela apenas se tornou vários livros ao invés de um. Mas é apenas uma estória, a estória de Harry”.

Outra comparação foi feita com a série de sete livros Crônicas de Nárnia de C. S. Lewis, a qual tem um forte tema moral e religioso. Ainda assim, sobre tudo a maior parte desta escrita é a realização de J.R.R.Tolkien. “Eu o admiro”, ela fala sobre um autor cuja atenção obsessiva aos detalhes excede até a dela própria.

O uso que ela faz de motivos e artifícios é similar ao de Tolkien. Os livros dela evocam uma sociedade dentro da sociedade e um mundo mágico de fantasia sobreposto a vida cotidiana. Tolkien cria um mundo fantástico processando uma cultura complexa, história e vários idiomas. Em O Hobbit, Bilbo encontra um anel que o faz ficar invisível; Harry tem a Capa de Invisibilidade. Para Tolkien, o anel se torna um símbolo; para Rowling, a capa é um bom artifício cômico. “Capas são mais divertidas que anéis, você pode tropeçar nelas, rasgá-las, elas podem cair – elas são divertidas”.

Ela tem uma irmã. “Era uma família pequena, talvez seja por isso que comecei a criar estórias. Eu brinquei com meninos que eram bons companheiros, amigos platônicos. Mas eu sempre precisei de um tempo para ficar sozinha. Eu ainda preciso. Eu gosto de me sentar para escrever, para criar meu próprio mundo”.

De onde Harry surgiu? “Ele simplesmente aconteceu. Eu estava pensando sobre ele há séculos. E ele tinha que ser um garoto. Teria sido um grande erro fazê-lo como uma irritável, menina traquinas jogadora de futebol”. Ele também não é nenhum santo. “Ele quer fazer o bem, quer se encontrar. Ele é corajoso, mas também conta mentiras”. Rowling nunca permitiu que seus leitores ditassem o que ela escreve. “Eu gosto dos meus leitores, eu gosto de entretê-los. Mas eu escrevo esses livros para mim mesma. Eu não quero me pegar pensando, ‘oh, céus, é melhor eu não escrever isso pois pode aborrecer meus leitores’.”

Apesar dessa adoração em massa, ela tem recebido críticas. Alguns pais foram contra aquele episódio no qual Harry e Rony, não conseguindo embarcar no trem para voltar a Hogwarts, chegam à escola por cortesia do carro voador do Sr. Weasley, o famoso Ford Anglia azul. “Não era para eles irem de carro. Mas o plano apela para a falta de cuidado de Rony”. Para Harry, a escola, com seus interessantes moradores, fantasmas tais quais Nick Quase Sem Cabeça e a Murta Que Geme, representa um santuário e a temida Rua dos Alfeneiros. “Eles roubam o carro e são punidos. Eles batem o carro”. Os livros têm uma moralidade sutil. Eles são sobre o bem e o mal e sobre a natureza humana em geral.”

Tudo começou por volta de 1990. A mão dela morreu. “Ela estava com 45 anos. “Ela tinha apenas 20 quando eu nasci”. Essa perda nunca a deixou. E nunca a deixará. Assim como Harry que ouve constantemente as últimas palavras de sua mãe. “Não é uma coincidência que isso é uma parte tão presente nos livros”. Rowling também estava tentando escrever um romance. Ela se viu tentando dividir-se entre o romance e Harry “e Harry começou a dominar. Ele venceu”.

Na Universidade de Exeter, ela estudou Francês e Literatura Clássica e após se formar, trabalhou na Anistia Internacional, antes de viajar. Isso a levou a Portugal, onde ela conheceu e se casou com um jornalista. “Durou muito pouco. Quando Jessica (sua filha) estava com três meses e meio, eu fui embora e voltei para a Inglaterra”. Era 1993. Embora Rowling faça questão de dizer que não é muito prática, ela às vezes parece bem prática. Ou talvez é uma praticidade aprendida com o sofrimento. Depois de algum tempo em Manchester e Londres, ela decidiu se mudar para Edimburgo onde mora a sua irmã. “Eu senti que Jessica poderia ter uma qualidade de vida melhor vivendo sem dinheiro na Escócia do que vivendo sem dinheiro em Londres”.

A situação dela estava prestes a ficar muito difícil antes de começar a melhorar. Mais do que tudo, ela teve que lidar com sua própria raiva e sensação de injustiça. Ela conseguiu um emprego como datilógrafa e uma qualificação para lecionar. Dentro de um ano, ela estava dando aulas de Francês mas começou a perceber que queria trabalhar meio período para ter tempo para escrever. Na metade dos anos 90, ela tinha “páginas e páginas” sobre Harry. Muito foi falado sobre a decisão de usar apenas as iniciais dela ao invés do nome a fim de atrair meninos para ler os livros. Novamente ela ri. “Foi idéia dos editores, eles poderiam ter me chamado de Enid Snodgrass. Eu só queria o livro publicado”. Ele foi e ela estava muito feliz com um adiantado de 2.500 (libras), ciente de que muitos escritores de livros infantis não recebem royalties. Harry Potter e a Pedra Filosofal foi lançado em 1997 com boas críticas e um Prêmio Smarties Gold.

Harry Potter e a Câmara Secreta foi lançado no ano seguinte com mais prêmios e ainda mais elogios. Um culto estava se desenvolvendo. Quanto a Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, que ganhou em 1999 o Prêmio Whitbread como Livro do Ano, ele meramente consolidou o que se tornou um fenômeno e preparou o cenário para as semanas recentes.

O quarto livro era originalmente esperado para ser entregue à editora no último Natal, mas Rowling atrasou em dois meses o prazo de entrega. “Eu tive problemas. Esse foi o mais difícil de escrever. Eu estava na metade do caminho, ou ao menos eu pensava estar na metade, e eu percebi que tinha um enorme furo na trama. Nunca tinha acontecido antes. De repente meu plano me falhou. E eu tive que recomeçar a coisa toda”.

Ela escreve à mão e aí então digita o primeiro de vários rascunhos. Seus personagens são pessoas que ela conhece muito bem. Outra vantagem de se criar uma estória através de vários volumes é ver o desenvolvimento dos personagens. Ela gosta de escrever os grotescos assim como os bonzinhos e quanto a escrever a comédia, ela diz: “Eu não acho que você realmente consiga fazer a si próprio rir, mas você pode divertir a si próprio. Eu divirto a mim mesma. O novo livro me fez chorar. É um livro muito importante, marca o final de uma fase”. Como ela descreveria o seu próprio humor? “É muito negro, até mesmo bem doentio”.

Algumas vezes, ela afirma que não foi contratada por ninguém para escrever sete livros. “Eu sei que não preciso escrever mais nenhuma palavra, mas eu farei”. Daqui a três livros, Harry Potter estará com 17 anos e pronto para deixar a escola e começar sua própria vida. Essa realidade tem a mesma mistura de satisfação e tristeza de quando vemos uma criança crescer.

Rowling parece ter alcançado o impossível, encorajando pessoas que não liam a começar a ler e apesar da fama, se mantém uma realista. Como o motorista de táxi idoso disse em Edimburgo a caminho do aeroporto: “Ela é uma moça sensata. A agitação não mudará sua personalidade. Eu já li dois deles”.

Harry Potter e o Cálice de Fogo é publicado pela Bloombury, por £14,99 (R$50,00) no Reino Unido.

Traduzido por: Fabianne de Freitas em 26/01/2009.
Revisado por: Dérick Andrade Moreira em 29/01/2009.
Postado por: Vítor Werle em 30/01/2009.
Entrevista original no Accio Quote aqui.