Mzimba, Lizo. “Transcrição da entrevista com J.K. Rowling”. BBC Newsround, outono de 2000.
Lizo: Então, King’s Cross, todas aquelas pessoas e a imprensa – que recepção incrível!
JK: Foi maravilhoso. Foi a melhor. Todas aquelas crianças, maravilhoso.
É essa a melhor parte de fazer a publicidade de um livro como esse, viajar pelo país e conhecer os leitores?
JK: Minha parte favorita é escrever, e depois quando se tem que fazer a parte promocional ocasionalmente, conhecer as crianças é de longe o que eu mais gosto. É maravilhoso. E as crianças não tão jovens, também.
Qual é a pergunta mais estranha que uma criança já fez para você em um evento ou seção de autógrafos?
JK: As perguntas mais alarmantes são quando crianças questionam sobre coisas que revelam que eles estão acompanhando meu processo de pensamento muito mais de perto do que eu imaginaria. Houve um garoto em San Francisco que me perguntou, antes do Livro Três ser lançado, de onde o Perebas tinha vindo, qual era a história dele. Para quem não sabe, Perebas é um rato que acaba não sendo um rato de maneira alguma; e eu achei um pouco assombroso ele ter mencionado isso, porque eu sabia desde o primeiro livro que ele não era um rato. Eu acho que as crianças estão lendo os livros doze vezes, e estão começando a realmente entender o modo como minha mente trabalha.
Isso é um perigo com a Internet?
JK: A Internet! Eu acessei a internet duas vezes. Alguns dos meus amigos estavam me dizendo o que tinha lá e eu nunca tinha visto antes. A primeira vez, eu pensei que nunca acessaria de novo, foi muito assustador. Algumas das coisas que estão lá são muito estranhas. A segunda vez que acessei, alguém tinha criado um fã site não-oficial onde você pode ser selecionado, eles tinham um Chapéu Seletor, e eu fui para a Lufa-Lufa. Eu não fiquei muito contente! Se alguém é pra ser da Grifinória, sou eu.
Você se preocupa que possa dizer algo em uma conversa em algum lugar e uma outra coisa em uma entrevista e essas pessoas possam tirar conclusões que cheguem perto do que você está fazendo no livro?
JK: Na maioria das vezes as pessoas juntam algo que eu disse, com algo que eles gostariam de pensar que eu diria, e algo que outra pessoa disse que é completamente falso, e chegam a conclusões completamente erradas. Isso apenas acontece. Ninguém nunca adivinhou o que vai acontecer, nem chegou perto.
Agora, Livro Quatro. Final muito assustador. Foi difícil escrevê-lo?
JK: Na primeira vez, eu chorei enquanto escrevia. Eu, na verdade, chorei duas vezes durante o final do Livro Quatro. É um final poderoso, mas há um motivo – algo MUITO importante acontece. Eu sempre digo que quando se está escrevendo sobre o mau você tem de ter respeito suficiente pelas crianças para mostrá-las o que significa. Não inventar um vilão de mentira e dizer, ‘não é assustador?’, quando não é. É o final que eu planejei e eu fiquei muito feliz quando o reli.
Você reescreve muito?
JK: Uma grande quantidade. Apenas uma vez eu me sentei, escrevi algo do começo ao fim, e deixei da forma original. Esse foi o capítulo em Pedra Filosofal quando o Harry aprende a voar. Eu me lembro vivamente – a velha história que nós ouvimos milhares de vezes – minha filha dormiu, era um belo dia ensolarado, eu me sentei em um café, e escrevi o capitulo inteiro. E eu acho que mudei apenas duas palavras. Isso é muito incomum para mim. Eu acho que há um capítulo no quarto livro que eu reescrevi 13 vezes. Em um momento eu pensei que este livro nunca aconteceria.
E quão vital é o Livro Quatro na série dos sete livros para Harry?
JK: Crucial. O quarto livro é muito, muito, MUITO importante. Algo muito importante acontece neste livro. Mas também, é literalmente um livro central. É quase o coração da série, e é fundamental. É muito difícil falar sobre todos os sete livros. Eu mal posso esperar pelo dia que alguém leia todos os sete e eu possa falar livremente sobre eles, mas é um livro muito importante.
Eu sei que você escreve para si mesma e não para um publico alvo, mas isso deve ter algum efeito, a expectativa e pressão que é construída ao redor de Harry.
JK: Na verdade a expectativa não me incomoda de forma alguma – porque eu faço justiça aos meus leitores que querem ouvir a história que eu quero escrever. Se eles ficaram comigo por três livros, eu espero que eles apenas queiram descobrir o que acontece depois, como eu vejo isso. Há outras pressões quando se tem um livro bem-sucedido como Azkaban. Era difícil algumas vezes. Mas o peso da expectativa não me incomoda.
O quarto livro explora diversos temas – alguns nós vimos antes, como o preconceito em Câmara Secreta. Nós vemos mais disso com estudantes estrangeiros e pessoas com origens diferentes. Isso é algo que você sempre quer explorar?
JK: Desde o começo de Pedra Filosofal, preconceito é um tema muito forte. É plausível que Harry entre no mundo de olhos arregalados: tudo será maravilhoso e um tipo de lugar onde injustiças não acontecem. Então ele descobre que isso acontece e isso é um choque para ele. Ele descobre que é mestiço: para um bruxo como Lucio Malfoy, Harry nunca será um bruxo de verdade, porque sua mãe era de origem trouxa. É um tema muito importante.
Voldemort também é mestiço.
JK: Assim como Hitler! Viu! Eu acho que este é o caso onde o valentão reúne seus próprios defeitos e os coloca em outra pessoa, e então tenta destruí-los. E é isso o que ele – Voldemort – faz. Isso foi muito consciente – eu queria criar um vilão que você pudesse entender como a mente dele funciona, e não apenas ter um vilão bidimensional vestido de preto, e queria explorar isso e ver de onde vinha. No quarto livro, Harry está começando a entender o que faz uma pessoa ficar desse jeito. Porque eles fizeram escolhas erradas e Voldemort fez escolhas erradas de uma tenra idade.
Foi difícil balancear as partes leves e sombrias do livro – você tem alguns momentos sombrios, e alguns maravilhosos momentos de humor. Olho-Tonto Moody que não consegue diferençar um aperto de mão de uma tentativa de assassinato. E uma piada levemente astuciosa sobre um dos planetas do sistema solar.
JK: Sim, levemente astuciosa! Eu fiquei satisfeita que minha editora deixou esta piada passar, porque ela realmente riu. Se é difícil? Não. Minha experiência é que, de um jeito muito limitado, mesmo quando a vida não está tão brilhante, as pessoas ainda riem. Nas mais trágicas situações. O final do livro é muito importante para mim porque Harry diz, nós vamos precisar de algumas risadas. É isso que é tão admirável sobre os seres humanos porque até quando eles estão nas piores situações, ainda há o humor.
Por que foi importante mostrar alguma tensão nas amizades se desenvolvendo nesse livro?
JK: Bem, no Livro Quatro, para mim, Harry, Rony e Hermione estão começando a encontrar suas próprias identidades – isso significa, de várias maneiras, se defrontar com o que seus pais os impuseram, ou a escola. Para Harry, é enfrentar a fama, realmente enfrentá-la pela primeira vez. Ele foi colocado em uma situação onde, como nunca antes, ele sentirá o peso do interesse das outras pessoas. Então é assustador. Rony tem de lidar com seu ciúme. Ele é amigo do garoto mais famoso da série e isso não é fácil. E Hermione adquire uma consciência política. Sim!
É essa a sua idéia de Hermione se tornar mais branda, como você disse antes. Ela não parece tão diferente para mim.
JK: Não, ela será. Ela é uma boa garota. Eu concordo com você – ela não está tão branda neste livro. Mas as pessoas cometeram o erro de assumir que minhas respostas se referiam ao quarto livro. Há ainda mais três livros por vir. Mas de algumas maneiras – ela está quebrando regras agora. Onde as crenças dela estão afetadas, ela está preparada para fazer coisas que ela supostamente não devia. Mas ela vai se abrandar. Eu prometo a você. Eu consegui.
Na última vez que conversamos você disse que iria aparecer uma prima dos Weasley. E não apareceu. Você me enganou!
JK: Ela ficou de fora. Desculpe-me por isso. O que aconteceu no quarto livro, e uma das razões pela qual esse foi, de longe, o mais difícil de ser escrito, o que não tem absolutamente nada a ver com Harry ser famoso ou eu ser famosa, foi que pela primeira vez meu plano falhou. Eu cheguei à metade e me dei conta que havia um buraco imenso na história. O início e o final simplesmente não combinavam. Isso foi inteiramente minha culpa: eu deveria ter tido o senso de pensar com muito cuidado sobre ele antes de começar a escrever. Então eu tive que desfazer uma série de coisas e nesse processo eu acredito que a prima dos Weasley tenha desaparecido.
Nós a veremos novamente?
JK: Possivelmente. Eu realmente gosto dela como personagem mas é uma história bem complexa com a qual estou lidando e não estou certa se ela vai se encaixar em algum lugar. Ela será a “personagem que poderia ter sido”.
É bem apropriado estarmos conversando com você em um trem – King’s Cross, seus pais, toda a história de Harry.
JK: Eu amo trens – eu não estaria aqui se não fosse pelo fato de meu pai ter conseguido, por um triz, entrar em um trem para King’s Cross – esse é o lugar onde ele conheceu minha mãe; ele pediu minha mãe em casamento no trem e eu tive minha idéia para Harry Potter em um trem. Muito apropriado.
Você está cansada de ouvir a pergunta sobre de onde que você tirou Harry?
JK: Sim. Eu fico frustrada comigo mesma porque você pensaria que a essa altura eu teria uma resposta inteligente ou engraçada para essa questão, mas não, ainda não encontrei! A verdade é que eu não sei de onde veio – ele apareceu na minha cabeça, completamente pronto, um garoto pequeno e magrelo, e eu sabia que ele era um bruxo que não sabia que era bruxo e então trabalhei de trás para frente daí. Eu senti essa excitação incrível de entusiasmo em escrever a história.
Você está preocupada que haverá uma reação ao estilo britânico contra Harry?
JK: Isso acontece. Obviamente eu tive contato com a imprensa e a televisão muito recentemente. Eu tenho visto isso acontecer com pessoas que admiro. De certa forma, eu esperava que isso acontecesse em Azkaban, mas não ocorreu, então eu superei isso.
Há uma personagem nesse livro, Rita; quão próxima essa representação é das suas relações com a imprensa?
JK: Bem, eu vou lhe dizer a verdade mas duvido muito que alguém vai gostar de ouvir isso. Eu tentei colocar Rita em Pedra Filosofal – você sabe, quando Harry entra n’O Caldeirão Furado pela primeira vez e todos dizem, “Sr. Potter, o senhor está de volta!”, eu queria colocar uma jornalista ali. Ela não se chamava Rita, mas era uma mulher. E então eu pensei, quando olhei para a história no geral, pensei, aqui não é onde ela se encaixa melhor, ele se encaixa melhor no Livro Quatro quando Harry se depara com sua fama. Então eu tirei Rita do Livro Um e planejei sua entrada para o quarto livro e eu estava muito ansiosa por Rita aparecer neste. Pela primeira vez, minha caneta hesitou metaforicamente ao escrever sobre ela, porque eu pensei, todos vão achar que esta é a minha resposta ao que aconteceu comigo. Mas o fato é que, Rita foi planejada desde sempre. Se eu me diverti um pouco mais com ela pelo o que aconteceu comigo – sim, provavelmente, me diverti!
Um pouco mais de veneno nela?
JK: Veneno? Você diria que sim??! Não – eu não chamaria de veneno.
Agora o futuro – Lupin volta no Livro Cinco.
JK: Você vê Lupin no quinto livro. Você gosta dele?
Sim, ele é um dos meus favoritos.
JK: E meu também. Eu sempre quis escrever o Livro Três por causa do Professor Lupin. Eu o amo. Sim, você verá vários personagens antigos no quinto livro. Sim. Eu nem vou dizer o que acontece no quinto livro! Eu estou apenas me recuperando do stress do quarto livro!!
E como estamos com o filme?
JK: Está progredindo. Nós ainda não temos Harry, o que é um pouco preocupante. Eu vi algumas coisas e elas parecem incríveis. Eu tenho muita sorte – tenho tido muita participação sobre como eu imaginei as coisas e eles estão realmente tentando recriá-las como eu as vejo em minha mente, e o mais incrível é ver o Quadribol, ou a cabana do Hagrid, coisas que você apenas assistiu em sua cabeça por anos.
É irritante para você, quando, às vezes, a imprensa e as pessoas falam sobre livros infantis e eles apenas comentam sobre Harry Potter, sem se importar que exista uma grande riqueza de outros livros infantis por aí?
JK: Sim, é. Realmente é. Livros infantis existiram por um longo tempo em uma espécie de gueto, em relação a imprensa, quando você compara com a cobertura que os livros adultos recebem. As pessoas me dizem, adultos também lêem Harry Potter, então é esse livro que atinge a todos; mas muitos e muitos e muitos escritores infantis merecem ser lidos por adultos. Eles podem não ser tão famosos por isso como Harry é, mas há pessoas como Jaqueline Wilson, David Almond e Aidan Chambers que acabou de vencer o Carnegie. Henrietta Brownford que eu realmente admiro, infelizmente ela faleceu há dois anos. Há muitas pessoas por aí – Philip Pullman também – escritores maravilhosos.
Agora, em uma entrevista, você disse que Firenze, o centauro, foi baseado em um amigo seu – mas nós vimos pouco sobre Firenze.
JK: Bem, apenas mantenha seus olhos abertos.
E a profecia do centauro no final de Pedra Filosofal.
JK: Ele voltará – é o suficiente a se dizer. Nem todo mundo leu o quarto livro.
E Gilderoy Lockhart, um dos meus personagens favoritos.
JK: Gilderoy, abençoado seja, ainda está no Hospital St. Mungos para doenças e acidentes mágicos, porque as memórias dele desapareceram. Então não farei promessas sobre o Gilderoy.
Ele era divertido de se escrever, porque ele o oposto de tudo o que você quis ser?
JK: Muitíssimo divertido de se escrever. O melhor de todos. Eu amei escrever Gilderoy, mas eu tenho a Rita agora, veja você. Eu amo escrever a Rita da mesma maneira que amava escrever Gilderoy.
É um pouco preocupante para você, toda essa comercialização que está prestes a começar – nós veremos, realmente, produtos de Gilderoy Lockhart para cuidados com os cabelos?
JK: Eu acho que seria bem engraçado, na verdade. Se isso me preocupa? Sim, com toda a honestidade, me preocupa sim. Erm, acontecerá, é isso o que acontece com filmes – haverá comercialização. Eu vi, anteriormente, exemplos de alguns tipos de coisas que eles estão fazendo e não tenho objeções a isso de forma nenhuma. Erm, mas isso me deixa apreensiva sim. Eu não quero ficar assim, não sei, não.
Agora vimos os hormônios se desenvolvendo nesse livro. Vamos ver Harry ficar ainda MAIS como “Kevin, o adolescente”, você sabe, [faz uma imitação de Kevin] ‘Sirius, huh, eu odeio você, eu queria que você voltasse para Azkaban’?
JK: Eu acho que o Rony é mais assim, não é? Rony é mais parecido com o Kevin. Harry tem tantas preocupações, ele precisa de seus amigos – ele não pode se permitir a indispor-se com eles.
Ele é delicado, não é?
JK: Sim. Ele é um herói mais sensível. E mais dessas coisas acontecem.
Agora, posso perguntá-la: há algum poder mágico especial em seu mundo que depende do bruxo usar os olhos para fazer algo? De alguma forma.
JK: Por que você quer saber isso?
Eu estava me perguntando, vagamente.
JK: Por quê?
Bem, porque todos sempre estão falando sobre como o Harry tem os olhos de Lílian Potter.
JK: Você não é inteligente? Há algo, talvez, que virá sobre isso. Não vou dizer mais nada. Muito esperto.
Eu vou fazer uma outra pergunta que você dirá que não é sábia de forma alguma. O significado do local onde Harry e os pais dele viveram, o primeiro nome –
JK: Godrico Gryffindor. Muito bom, você é bom, não é?
Obrigado.
JK: Estou impressionada. Minha editora não notou, eu a perguntei se ela não tinha notado uma conexão entre o local onde os pais de Harry nasceram, não onde nasceram, onde eles viveram, e uma das casas de Hogwarts e ela ficou lá sentada meio que perdida. Não estou sendo rude com a Emma, ela é uma editora brilhante, a melhor que já tive. Mas saiba que ela não percebeu isso. Você é sim, muito bom.
Oh bem, parece que este é um bom momento para parar enquanto estou à frente. Muito obrigado pelo seu tempo.
JK: Sem problemas, foi divertido.
Traduzido por: Ana Feitosa em 02/02/2009.
Revisado por: Fabianne de Freitas em 26/02/2009.
Postado por: Vítor Werle em 26/02/2009.
Entrevista original no Accio Quote aqui.