Gray, Paul. “Harry está de volta”. Time, 17 de julho de 2000.
Alguns segundos após a mágica hora da meia noite do sábado passado, a mais irritante e desnecessária campanha de marketing da história do mundo editorial finalmente entregou seus bens. “Harry Potter e a o Cálice de Fogo” (Arthur A. Levine Books/Scholastic Press; 734 páginas; U$25,95), de J.K. Rowling, teria vendido milhares de exemplares se suas editoras americana e britânica tivessem simplesmente colocado-o nas livrarias, sem anúncios, e então saído do caminho conforme a notícia se espalhasse pelo boca-a-boca entre os Pottermaníacos. Esse é mais ou menos o modo como os três primeiros livros do menino bruxo pegaram fogo de forma tão fenomenal entre os jovens leitores e então entre seus pais e também outros adultos. O problema com tanta espontaneidade, com um apaixonado entusiasmo, pelo menos para aqueles com seus afiados olhos nas conclusões, é o fato de ser imprevisível e instável, assim como as Tartarugas Mutantes Ninjas e os Power Ranger Poderosa Morfagem. (Quem? O que?) Então, dessa vez, a franquia Harry Potter decidiu deixar o mínimo possível por conta de um capricho.
Daí a provocação, o sigilo intensamente divulgado; os estoques cheios de segurança; a ordem de que as livrarias não vendessem ou mesmo abrissem exemplares do novo livro antes dos primeiros momentos de 08 de julho (embora alguns de fato tenham vazado antes). Recordes de publicação foram ruidosamente anunciados: uma impressão inicial de 3,8 milhões de cópias no EUA, mais um milhão na Inglaterra.
“Enriquecer um título já rico, dourar ouro de lei, pintar o lírio”, escreveu Shakespeare, “é ridículo excesso, sobre inútil”. Verdade, mas esse é um novo milênio, e dourar Harry Potter parece ter funcionado. A cuidadosamente construída demanda deu origem a longas filas de clientes e curiosidade nas muitas livrarias americanas abertas na virada do último sábado. Alguns desses cenários pareciam surreais. Na “Books of Wonder”, no sul de Manhattan, a TV local e os repórteres tentavam andar pela multidão de ansiosos compradores de livro. “A A.P. (Associated Press) já nos pegou”, disse Dave Lambert, 28, que estava esperando por sua namorada. “Você tem duas filas aqui, uma entrevistando a outra”. Uma mulher de relações públicas grita, “Alguém precisa de uma palavra da Scholastic?”. Uma satisfeita equipe de filmagem do Good Morning America, da ABC, empacotou suas coisas para partir. “Nós conseguimos a menina fofinha”, disse um câmera-man. “Acho que acabamos. Estamos prontos para sair e beber?”.
Vale a pena lembrar agora que “Harry Potter e o Cálice de Fogo” não é um blockbuster de verão de Hollywood, embora suas arrecadações do final de semana serão provavelmente anunciadas em uma reportagem de tirar o fôlego. É um livro, um livro bem longo, sem imagens que se movem, trilha sonora ou joystick. Lê-lo ou ouvir alguém o lendo requer uma dose de silêncio, a exata antítese de todos os sinos e zumbidos e clarinetes que anunciaram sua chegada.
O que acontecerá quando a gritaria passar? Primeiro, esses milhões que foram encantados pelos primeiros livros vão certamente se sentir da mesma forma por Cálice de Fogo. Como seus predecessores, o livro é intensamente dependente de surpresas e suspense. Os leitores de Rowling compreensivamente não gostam de receber dicas sobre detalhes antes que possam descobri-los por conta própria. Mas muitos deles depois voltam e lêem os livros múltiplas vezes. De fato, o último capítulo de Cálice de Fogo, que começa na página 569 (versão brasileira), chama-se “O Começo”, o que parece uma dica dizendo aos leitores para que comecem a ler novamente.
O novo livro segue, em linhas gerais, a fórmula dos livros anteriores, resgatar Harry de alguns sofrimentos de verão na casa dos Dursleys, seus horríveis parentes trouxas (seres humanos não mágicos); transportar a ele mesmo e seus dois melhores amigos, Rony Weasley e Hermione Granger, para a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts; e então expor o herói a outra ameaça de Lord Voldemort, o terrível bruxo das trevas que assassinou seus pais, mas misteriosamente falhou em matar também Harry, de um ano de idade.
Como em livros anteriores, Rowling introduz novos elementos e personagens para manter os leitores atentos. Dessa vez, a viagem até o Expresso Hogwarts não ocorre até que Harry e seus amigos vão à 422ª Copa Mundial de Quadribol, com Irlanda contra Bulgária, em frente a uma multidão de 100.000 bruxos e bruxas, todos que conseguiram se reunir sem ser vistos por nenhum trouxa desavisado. De volta à Hogwarts, os alunos ficam sabendo que algo chamado Torneio Tribruxo ocorrerá durante o ano letivo, envolvendo competidores de dois outros estabelecimentos de treinamento mágico, Academia Beauxbatons e Instituto Durmstrang. (Adivinhem, pelos nomes, onde estão localizadas essas escolas). Novos personagens incluem Alastor (Olho-Tonto) Moody, o mais recente na série de professores de Defesa Contra Arte das Trevas, e Rita Skeeter, uma manipuladora repórter do jornal bruxo, o Profeta Diário.
Embora Cálice de Fogo tenha quedas aqui e ali, a incrível criatividade de Rowling em descrever novas maravilhas bruxas e seu astuto senso de humor geralmente mantêm as coisas andando rapidamente. Quase todas as páginas oferecem algo intrigante ou engraçado. Há, por exemplo, os estranhos livros de magia que a estudiosa Hermione consulta, incluindo “Homens Aficionados por Dragões” e “Onde Há uma Varinha, Há uma Saída“. Não há dúvida de porque pais que começaram a ler os livros para seus filhos se encontraram fisgados. Mas dessa vez, alguns pais podem querer manter os livros longe de seus mais novos. Os rumores de que Cálice de Fogo seria mais obscuro e mais violento do que os primeiros três acabaram sendo verdadeiros. Um personagem significante morre (não se preocupe, não diremos qual). Também, em uma linha mais leve, Harry sai com uma garota. Rowling prometeu mais três livros Potter e a direção que ela está tomando pode inquietar alguns fãs. Mas é o ataque da publicidade para o próximo que provavelmente será verdadeira e cruelmente horripilante.
— Com reportagem por Andrea Sachs/Nova Iorque
Traduzido por: Renata Grando em 08/01/2009.
Revisado por: Thais Teixeira Tardivo em 15/01/2009.
Postado por: Vítor Werle em 23/01/2009.
Entrevista original no Accio Quote aqui.