Chebatoris, Jac; Gonzalez, Naybelli e Phillips, Andrew. “Seu momento mágico”. Newsweek, 30 de junho de 2003.
J.K. Rowling tem uma mania de encolher sua cabeça uns 2 ou 3 centímetros em direção a seus ombros e suas mãos balançarem o ar a sua frente, como se estivesse tirando a agonia dele. E é isto que ela faz quando perguntada sobre seu novo livro, Harry Potter e a Ordem da Fênix. – “No momento eu estou em um estágio que posso apenas visualizar falhas,” ela diz, gesticulando suas mãos juntamente com sua voz. “Eu telefonei para minha irmã e disse ‘o livro é horrível, simplesmente horrível’. Ela riu. Eu disse: ‘isto não tem graça. Não tem graça que o livro seja horrível’. E então ela replicou: ‘você disse isto para todos os livros’. Então falei: ‘mas desta vez eu realmente falo sério. É simplesmente horrível’. E ela outra vez: ‘aham. Você disse isto para cada um deles’. Portanto ela não foi de nenhuma ajuda”. Sem querer comprar uma briga logo no primeiro parágrafo ou coisa parecida, mas concordamos 100% com a irmã nisto.
Por outro lado, quem não duvidaria de si mesmo se seus quatro romances anteriores fossem sobre o menino mágico mais famoso do mundo, que vendeu mais de 190 milhões de cópias no mundo todo, em oito anos, e traduzido em 55 idiomas? O último fascículo da saga, Harry Potter e o Cálice de Fogo, vendeu 3 milhões de cópias no primeiro final de semana de lançamento em 2000, tornando-se o livro mais rápido a ser vendido na história. O único livro que tem uma grande chance de bater este recorde é Ordem da Fênix. O site Amazon.com teve mais de um milhão de reservas, e, entre a meia noite de sexta-feira passada, quando o livro começou a ser vendido, e segunda-feira, a Barnes & Noble espera vender um milhão de cópias.
Quando os livros começaram a ser vendidos às 00:01 de sábado, as livrarias abriram suas portas para milhares de Harrys fantasiados ou apenas crianças em seus pijamas que não poderiam esperar nem mais um minuto para conseguirem seus exemplares. Estas cenas em livrarias foram remanescentes da loucura da meia noite das vendas de Cálice de Fogo, em 2000, mas diversas destas celebrações anuais foram muito mais elaboradas. A Magic Tree Bookstore em Oak Park, Ill, convenceu a cidade em transformar um bloco comercial inteiro na rua mágica do Beco Diagonal. Milhares de pessoas apareceram por lá, inclusive Bonnie e Vann Simith com sua filha Bridget de 14 anos, que vieram lá de Mountain Home, Ark. Bridget disse que leu cada um dos 4 romances anteriores 11 vezes e planeja ler o livro a seus pais na viagem de volta para casa – “se eu não o terminar hoje à noite”. Na Times Square em Nova Iorque pessoas formaram fila ao redor da quadra na Toys “R” Us para conseguirem um livro, pessoas como Courtney Sadowsky, 28, de Howell, N.J. quem disse: “Eu já li o primeiro livro do Harry Potter para minha filha de 7 meses”. Ela planeja fazer o mesmo com o resto da série. Ficar em pé em uma fila ao redor da quadra às 2 horas da manhã não é o que muitos considerariam como tempo bem gasto. Vamos ver o que a loja Books & Books de Miami disse: se você reservou seu livro, nós prometemos entregá-lo na porta da sua casa na manhã de sábado.
A semana anterior a que Harry Potter e a Ordem da Fênix começou a ser vendido foi ainda mais agitada. A editora britânica e a americana de Rowling cumpriram a todos os seus desejos e fizeram o melhor de si para manter o livro em segredo até a data de venda, para que nenhuma criança e principalmente nenhum crítico conseguisse uma cópia antes de qualquer outra pessoa. Os beneficiários imediatos desta política foram apostadores ingleses que mostraram as vantagens de qual personagem morreria no novo livro, com Hagrid, o guardião das Chaves e dos Terrenos de Hogwarts, o favorito com 7-2, seguido por Sirius Black com 4-1 e Professores Minerva e Dumbledore com 5-1. Durante a semana, consumidores sortudos acharam livros que misteriosamente pousaram nas prateleiras das lojas – em um Wal-Mart no Canadá, em uma loja de produtos naturais no Brooklyn. (A nossa veio de uma biblioteca pública). A Scholastic, que gastou mais de US$3 milhões promovendo o novo livro, foi tão inflexível quanto a não revelar o conteúdo para ninguém antes da data de lançamento que a National Braille Press alegou não conseguir acesso ao manuscrito para produzir a versão em Braille antes do final de semana. Poucos autores conseguem este tipo de apoio de seus editores. No entanto, com toda a publicação estagnada por dois anos (até mesmo a Scholastic demitiu 4 por cento de sua equipe recentemente), que editora não se esforçaria em acomodar a criadora de Harry Potter?
Não que Rowling seja uma prima donna. Ela nem gosta de reclamar. Sua vida, ela gostaria que você soubesse, está muito além de OK: “somente alguém que estivesse tão falido quanto eu estava pode entender como estou feliz. Eu estimo todos os dias em que não tenho que me preocupar com dinheiro”. A autora de 37 anos tem um novo marido, Dr. Neil Murray, um clínico geral que ela conheceu através de amigos em comum. Eles casaram-se no dia depois do natal, em 2001, e tiveram um bebê chamado David Gordon Rowling Murray, nascido em março. Ela estreará como artista convidada em Os Simpsons no próximo outono. Três anos atrás a rainha da Inglaterra fez Rowling uma Oficial da Ordem do Império Britânico. (Enquanto estivermos falando a respeito da rainha, Rowling é a mais rica entre as duas, embora ela negue o valor próximo do suposto US$468 milhões). Quando ela deu a NEWSWEEK uma rara entrevista em sua casa em Edimburgo (ela tem mais uma no interior da Escócia e outra em Londres), se comportou como uma celebridade, somente uma vez, nos deixou esperando. No entanto, foi somente porque ela precisava alimentar o bebê e colocá-lo para dormir.
O endereço do final feliz da Cinderela da vida real – a mãe solteira que nove anos atrás estava rabiscando coisas em cafés de Edimburgo enquanto sua bebê dormia – é uma casa de dois andares de pedra no estilo Vitoriano com algumas hortênsias murchas ao lado da varanda. Localiza-se em um bairro de classe média alta com fileiras de árvores enfeitando as ruas. É um bairro cheio de médicos, advogados e políticos, e, não fica na parte mais requintada da cidade, Rowling faz a observação. Há um escritório isolado na propriedade onde dois assistentes manuseiam as milhares de cartas que ela recebe por semana. Rowling gasta pelo menos um dia da semana respondendo cartas. Não tem carros glamourosos na garagem, a não ser se você contar o Mini Cooper do marido (um dos fatos mais peculiares em Rowling: ela não sabe dirigir). Sua filha Jessica, de seu primeiro casamento, ainda freqüenta uma escola pública. A única pista que revela que você está próximo de um território de uma pessoa rica e famosa é o cadeado no portão. Butch, o Jack Russell terrier, é amigável de mais para assustador algum intruso.
Quando Rowling finalmente coloca David para dormir e caminha vagarosamente através da passagem de pedra até o escritório, ela parece alta e magra em um jeans e camisa vermelha. Ela não aparenta estar envergonhada nem tão pouco preocupada. Portanto ao sentar-se e começar a falar, ela remata cada resposta como uma verdadeira contadora de histórias que possui a manha para detalhes e narrativa.
De cara, não se pode evitar de perguntar se a fama não tem seu preço. Não torna-se cada vez mais difícil sair para dar uma volta? “Não, não” ela replica lenta e serenamente. “Eu posso dizer com certeza que não existe nenhum lugar que eu evitaria”. No entanto, suas mãos começam a se contorcer em cima da mesa. “Bem, isto não é verdade. Há um lugar que eu evitaria de ir: eu não escrevo mais em cafés. Não posso mais fazer isto. Eu sei que pessoas podem pensar ‘Bom, é o preço que se paga’. Mas para mim isto é uma privação, porque era a melhor forma que tinha de trabalhar. Muito ocasionalmente, como uma recompensa, eu pego meu notebook e vou a lugares em que não é sabido de eu escrever e escrevo por lá. Ano passado pensei que tinha sido esperta, fui ao café da National Portrait Gallery. Imaginei – ‘Bom, ninguém prestará atenção, obviamente, porque estarão interessados em coisas que acabaram de ver’. Dois dias depois o Edinburgh Evening News publicou, ‘J.K. Rowling avistada na National Portrait Gallery Cafe escrevendo. Será este o livro 5?’ Sim, era o livro 5, mas agora não posso escrever lá, seus bestas”. Isto conclui a parte de reclamações da entrevista.
Os quatro primeiros livros de Rowling saíram um após o outro com aproximadamente um ano de diferença entre eles. Quando o quarto apareceu, o desgaste deste ritmo começou a ficar evidente. Cálice de Fogo foi uma leitura compulsiva, como uma seqüência de ação com 734 páginas, mas a escrita foi mais relaxada do que a prosa dos primeiros volumes. Ordem da Fênix, ao contrário, nunca sai fora do controle. Ela conta sua história com seu dom característico de ritmo e surpresa. Tudo o que levamos a sério – começando com o poder supremo de Dumbledore, diretor de Harry em Hogwarts – é colocado em dúvida. Isto torna as coisas muito mais assustadoras, tanto para Harry quanto para o leitor, porque o maligno Lord Voldemort consolida seu poder, infectando até mesmo o Ministério da Magia com seus planos maldosos.
Ordem da Fênix é a história mais típica de todos os livros de Harry Potter. E já que Edimburgo parece ter um castelo em cada esquina, é de se imaginar quanto disto Rowling se aproveitou. Nem um pouco, ela alega. “Eu poderia viver em qualquer lugar e ainda assim produzir exatamente palavra por palavra. Mas eu penso que ser britânica é muito importante. Porque nós temos um folclore tão variado de diversas origens, eu era interessada nele e o pesquisei. E então tive a idéia para Harry”.
Rowling não pede desculpas a seus leitores por tê-los deixado esperando. “Eu queria saber como era escrever sem ter a pressão do prazo, e, foi maravilhoso. Eu tenho escrito intensamente desde Pedra Filosofal (o primeiro livro). Ao chegar em Cálice de Fogo, eu estava escrevendo 10 horas por dia. E isto estava ficando ridículo. Porque eu tenho uma filha. Eu realmente quero vê-la antes que ela tenha 18 anos, saia de casa e nunca mais fale comigo novamente”. O tempo extra foi recompensado em uma crônica muito longa, mas nunca vaga, onde cada página é produto de exemplos da extraordinária inventividade de Rowling. Melhor toque? Uma pena em que Harry é forçado a usar na detenção. Enquanto escreve “Não devo contar mentiras” as palavras são gravadas nas costas de sua mão. Ordem da Fênix é um dos melhores livros da série. Quão bom ele é? Eu espiei para saber como termina. Está bem, processe-me. Eu espiei em Casa Abandonada também. Somente um livro muito bom o força fazer isto.
Sim, um personagem importante morre, mas sem revelações aqui. Em seu lugar, vamos fazer uma pausa para uma mensagem da autora: “eu sei que alguns de meus fãs ficarão bem chateados comigo ao terminar o livro. Eu realmente peço desculpas a eles, mas teve que ser assim. E eu sinto muito porque sei como é perder alguém, Albeit uma pessoa fictícia, que você era muito ligado”. E sim, a trama torna-se mais obscura em Ordem da Fênix, um ponto que Rowling pensa ser tão óbvio quase não vale a pena mencionar – “Estou surpresa que as pessoas estão admiradas que a série está ficando mais obscura, porque o primeiro livro começa com um assassinato. E embora você não veja o assassinato acontecer, isto para mim foi um sinal de que estas coisas iriam acontecer dentro da série”. Entretanto, ela não nega o fato de que crianças muito novas irão querer ler estes livros e que elas ficarão perturbadas – “Eu sempre fui ambivalente quando as pessoas me diziam que leriam o primeiro livro para seus filhos de 6 anos de idade, porque eu sabia o que estaria por vir. Ademais, tenho que dizer que mesmo no primeiro livro, o final é assustador”.
Talvez a maior surpresa em Ordem da Fênix seja que Harry, agora com 15 anos, está finalmente agindo como um adolescente temperamental e mal compreendido. “Eu sempre disse que quero que Harry cresça de uma forma realista, o que significa impulsos hormonais, muita ansiedade e raiva próprias de adolescentes. Harry está muito mais zangado no livro 5, eu penso que ele está inteiramente correto, dado o que ele tem passado. Já estava na hora dele ficar irritado com o que a vida o deu”. No entanto, não seria inapropriado para uma criança de nove anos de idade ler sobre estas coisas? “Eu penso que não. Eles também terão 14 anos. Não há problema em saberem o que adolescentes de 14 anos podem às vezes sentir. Minha filha tem 9, e eu sei que ela pode agüentar o livro 5, porque estou lendo para ela neste momento. Ela é capaz”. Para o doce desgosto de sua mãe ela começa a ditar pontos da trama. “Ela me disse claramente quem eu não devo matar. E eu a disse – ‘bom, eu já sei quem morrerá, então agora não é hora de vir até mim e falar que não devo matar X, Y e Z, porque seus destinos estão pré-ordenados’. E ela não gosta de ouvir isto. Nem um pouco”.
Poucos autores são tão protetores das suas criações como Rowling. Então é bom ouvi-la colocar uma sutil, mas diplomática distância entre seu trabalho e os dois filmes que foram derivados dele até agora. Ela gosta do visual dos filmes – “Chris Columbus (diretor dos dois primeiros filmes) estava ansioso para me ouvir dizer exatamente o que eu achei em termos de cenários mais especificamente. Quando eu entrei no Salão Principal de Hogwarts montado em um estúdio fora de Londres, foi exatamente como entrar dentro da minha própria mente”. Ela estava excitada em relação as cenas de Quadribol – “Quadribol realmente estava a altura das minhas expectativas. Isto foi fenomenal”. Ela está animada com Alfonso Cuaron, quem está dirigindo o terceiro filme, Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban. Rowling nos fala que uma das razões de ter vendido os direitos dos filmes à Warner Bros. foi porque eles fizeram um trabalho muito bom com A Princesinha, um filme de Cuaron. Mas isto, ela responde, são especulações suficientes para um dia, porque a próxima coisa que ela fala é: “obviamente, eu prefiro livros. Eu sou uma escritora. Isto sempre será assim. O que acontece com o filme é que todos vêem a mesma coisa, e, isto sempre o torna inferior ao romance. Os leitores precisam trabalhar comigo para criar uma nova Hogwarts a cada vez que os livros são lidos.
A respeito da propaganda envolvida em Harry Potter – os bonecos, robes e vassouras vibrantes – Rowling deixa claro que ela nunca começou a escrever “Harry Potter e a Câmera do Comércio”. Há momentos, ela admite, “que eu me arrependo por ter vendido os direitos do filme. Apenas alguns momentos”. Mesmo a Warner Bros. tendo dado a ela grande espaço para se expressar em como as histórias são desenvolvidas para o cinema, ela diz: “a única coisa que não tenho poder decisório foi dizer não à propaganda. Eu o teria feito se pudesse. No entanto, temos que ser realistas a respeito disto. Estes são filmes muito, muito caros de serem feitos, e, nenhuma companhia no mundo o faria fiel ao livro sem fazer propaganda. Porque eles tem que recuperar seu dinheiro de alguma forma”.
É claro que é difícil imaginar alguém no universo Potter que não está lucrando. Quando perguntada para explicar sobre a popularidade de seus livros, ela sabiamente diz que não tem idéia e nos aconselha a perguntar aos seus leitores. Mas ela certamente sabe quem é e o que quer da vida. Próximo ao final da entrevista, seu rosto assume um semblante preocupado novamente, e suas respostas se restringem a apenas sim e não. Mas é aí que aparece seu marido trazendo o bebê até o escritório, para uma visita, e ela volta a ficar animada. Ao vê-la acariciar seu recém-nascido, lembramos o que ela disse quando interrogada quanto a se há algum paralelo entre ter um bebê e produzir um livro. “Sim, há paralelos”. ela respondeu. “A diferença é que eu olho para o David e vejo que ele é absolutamente perfeito, enquanto quando olho a um livro terminado penso: ‘merda, deveria ter mudado aquilo’ você nunca está contente. Enquanto com um bebê, você fica feliz. Se você tem uma criança perfeita, você fica simplesmente grato”. Nós que estamos sob o efeito da mágica de Harry Potter somos mais relutantes a criticar a criação literária de Rowling, mas todos temos certeza do que é estar grato.
Traduzido por: Ronnie Rodrigues Pereira em 25/02/2007.
Revisado por: Patrícia Abreu em 25/04/2007.
Postado por: Fernando Nery Filho em 12/04/2007.
Entrevista original no Accio Quote aqui.